Foi uma das visões reforçadas durante a última parte do talk show ‘Educação para toda Nação’, com participação das professoras Isabel Cristina de Pádua Barreto e Walkiria de Oliveira Rigolon

Reforçar para toda a sociedade que a escola infantil não é só espaço de cuidar, mas também de aprendizagem e desencorajar falas negativas contra qualquer professor. Foram os dois compromissos propostos pela empresária e presidente do Grupo Mulheres do Brasil, Luiza Helena Trajano, à plateia da última parte do talk show “Educação para toda Nação”, realizado no último 15 de agosto, em São Paulo, pela agenda do Programa Plugar. Luiza foi inspirada pelas falas das participantes Isabel Cristina de Pádua Barreto, professora da Educação Infantil da rede municipal de São Paulo, e Walkiria de Oliveira Rigolon, doutora em Educação e professora do Ensino Fundamental na rede estadual paulista.

Isabel, Luiza, Rosemary e Walkiria, durante o Talk Show – Foto: Angela Rezé

 

Isabel iniciou seu depoimento dizendo que não se vê em outro lugar que não seja dentro de uma sala de aula e que se realiza com o trabalho na Educação Infantil. Ela trabalha numa Emei (Escola Municipal de Ensino Infantil) – que atende crianças de 4 a 5 anos -, dando aula para uma sala de Infantil II com 35 crianças.

Para ela, inclusão é uma das grandes questões que impossibilitam a qualidade das atividades na  escola pública. “Precisamos dar vista e voz para todos”, diz.

Contou que sua roupa de trabalho é tênis e roupa larga, porque está o tempo todo no chão com seus alunos, ou em tanque de areia ou em quadra. “Eu tenho que estar à altura deles e não eles à minha”, pontua.

Foi Isabel quem falou que os pais dos alunos ainda olham para a Emei como só um espaço de cuidar. “E não é. É um espaço de cuidar e de educar. As nossas crianças nas escolas públicas, aprendem muito. (…) Tudo é intencional dentro da escola. A criança acha que está brincando, mas, por trás da brincadeira tem toda uma intenção e um preparo do professor nas áreas de conhecimento que ele precisa desenvolver com sua turminha”, explica a professora.

Outra dificuldade apontada por ela é a ausência dos pais na escola. “Quando fazemos a reunião de pais, a adesão é muito baixa e a participação deles é muito importante”, ressalta.

Ela também se ressente do pouco reconhecimento deles em relação ao trabalho do professor de educação infantil.

Já Walkiria, que leciona na mesma escola de periferia da rede pública há 34 anos, iniciou sua fala com um dito muito popular entre sua classe: “o magistério é trabalho feminino e carreira masculina”, porque, a cada cargo com salário maior, os homens continuam ascendendo, enquanto as mulheres ficam estagnadas nos mesmos degraus. “Nos anos iniciais são praticamente só mulheres. Nos anos finais começam a entrar homens. Essa é uma questão histórica”, salientou.

Também para Walkiria é preciso valorizar os professores. Ela lembrou que não ensinam só conteúdo, pois isso qualquer profissional pode fazer. Professor é profissão e não somente saber conteúdo.  “Contador pode dar aula de matemática, um biólogo pode dar aula de ciências, um bom jornalista, Língua Portuguesa. Mas a gente não ensina só conteúdo.  A gente ensina muita coisa dentro da escola”, diz.

Rosemary entrevista Walkiria, durante o Talk Show – Foto: Divulgação

Acha ótima a parceria do Grupo Mulheres do Brasil, mas pede cuidado, pois os professores estão muito escaldados com institutos, que fazem promessas, até iniciam um trabalho junto a escolas e, de repente, somem. “Eles fazem um marketing social e, se as coisas vão bem, ótimo, usam. Quando não vão, o professor é responsabilizado, porque a gente não tem uma política de corresponsabilização, mas de culpabilização, infelizmente”, declarou, sendo aplaudida.

Para Walkiria, a escola também está sozinha dentro dos governos, o que a impede de dialogar com outras secretarias, como de Assistência Social e de Saúde, quando se trata de resolver problemas dos alunos que afetam seu rendimento escolar – um adoecimento, por exemplo.

Também acha que faltam mais investimentos no aperfeiçoamento do professor e citou como exemplo as ocasiões em que ela mesma teve de pedir afastamento sem salário para poder estudar para mestrado e doutorado. “Então, uma coisa que precisa mudar é investir mesmo na formação dos professores. Se ele quer ir à universidade, investir em pesquisa para melhorar sua atividade, isso devia ser valorizado. Mas a gente tem uma política que pune o professor que quer investir na sua profissão”, criticou Walkiria.

Conclui sua fala dizendo que a maior recompensa da profissão é o salário “afetivo”, representado pela valorização que vem do aluno. “Acho que ser professor é maravilhoso, mas a gente ainda tem um longo caminho ainda a seguir”, finalizou.

Como ministras

À pergunta das mediadoras sobre o que fariam se fossem ministras da Educação, Walkiria respondeu que elaboraria um plano de carreira favorável ao profissional e , estimularia uma formação que permitisse ao professor ocupar espaços de pesquisa nas universidades e garantiria mais condições de trabalho nas escolas. “No ano passado, em uma escola em que lecionei, não havia papel higiênico e tinta para a impressora”, citou. Isabel endossou e acrescentou: “se a gente conseguir, de verdade, reforçar o papel desse professor na escola, já vai fazer toda a diferença”.

Profissionais e especialistas participantes do Talk Show “Educação para toda Nação” – Foto: Angela Rezé

Por Sílvia Pereira