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Participamos recentemente da reunião de cúpula do Women20 em Buenos Aires como delegadas do Brasil, para aprovar um documento de recomendações pela igualdade de gêneros ao G20, o grupo que reúne os líderes das 20 economias mais influentes do planeta. Foram três dias intensos de muito trabalho depois de um ano de debates e sugestões feitas virtualmente, em rede com outras delegadas do mundo todo – mas valeu a pena.

Na estrutura do G20, o W20 é um dos chamados grupos de engajamento, formados por integrantes da sociedade civil saídos de empresas, organizações e think tanks, com a responsabilidade de fazer recomendações e pressionar sobre temas específicos como direitos trabalhistas (no Labour20) ou medidas para inclusão dos jovens no mercado (no Youth20), por exemplo. O W20 foca em como promover o desenvolvimento econômico de mais e mais mulheres em todo o mundo, garantindo seus avanços na igualdade de direitos.

Na reunião deste ano, a quarta do W20 desde a sua criação, em 2015, o documento aprovado pelas 65 delegadas presentes (link aqui) fez recomendações em quatro áreas:

  1. Para a inclusão de mais mulheres no mercado de trabalho, medidas como licença parental compartilhada e obrigatória até 2025, serviços de assistência universais e acessíveis para quem tem dependentes e a proteção de direitos sociais e trabalhistas com o avanço da tecnologia sobre os empregos, em especial os de menor qualidade, onde elas encontram ocupação. Proteção contra a violência e o assédio nos locais de trabalho, inclusive online, também está na pauta;
  2. Para a inclusão financeira, acesso igualitário a crédito, bens, capital e recursos e o compromisso de aumentar em pelo menos 10% os contratos públicos com empresas pertencentes ou lideradas por mulheres, para que participem efetivamente da cadeia de valor;
  3. Para a inclusão digital das mulheres, mais acesso à tecnologia, à internet, à conectividade e à capacitação continuada, além de medidas para garantir que elas  poderão controlar algoritmos em inteligência artificial para eliminar vieses de gênero e terão mais condições de estudar e trabalhar nas indústrias STEAM (Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática), hoje dominadas por homens;
  4. Para as mulheres rurais, mais acesso a financiamento e fundos públicos para que possam desenvolver seus próprios negócios, e mais acesso a serviços de saúde, educação e legais que sejam sensíveis a gênero em suas áreas, além de garantir a participação de mão de obra feminina nos projetos de desenvolvimento rural e em sua governança, com a garantia de protocolos contra a violência de gênero.

Depois que chegamos de volta, muita gente nos perguntou se a reunião e o documento final enviado ao G20 mudam alguma coisa, em termos práticos. A resposta, em especial aos mais céticos, é que sim, muda! Por duas razões. A primeira: os problemas, entraves e necessidades das mulheres ficam mais fáceis de enxergar, de analisar e de compreender quando se produz um documento como esse, que soma em uma página e meia de texto medidas que podem realmente transformar a situação nos países do G20, e inspirar todos os outros com os avanços. Um documento que vai parar nas mãos de líderes globais.

A segunda razão é que o documento vai além das recomendações, e exige do G20 que os planos nacionais desenvolvidos para abordar os problemas apontados tenham prazo e resultados monitorados e medidos permanentemente, transformando-se em planos de ação de verdade. Outra exigência do documento é que as questões de gênero saiam da alçada exclusiva do W20, e que possam atravessar todos os outros grupos de engajamento e a cúpula dos líderes, uma vez que afetam a metade da população do planeta. E que as mulheres passem a ter espaço nas rodadas de negociação.

Em cada país, as delegadas serão agora responsáveis por entregar o documento às lideranças locais, dar publicidade às discussões feitas no âmbito do W20 e monitorar seus avanços. A necessidade de coletar dados globais que possam ser comparados nas mesmas bases também está contemplada no documento, pois assim os avanços (ou retrocessos) ficarão mais visíveis.

Nem tudo será resolvido de forma rápida, porque estamos tratando de questões milenares, estruturais e culturalmente arraigadas quando falamos de igualdade de gêneros – questões que estarão presentes na reunião do W20 no próximo ano, no Japão, e no próximo, no próximo e no próximo… Mas é preciso acreditar que um passo de cada vez, e na direção certa, pode nos levar a todos a uma sociedade mais justa e melhor. A meta do W20, afinal, é que um dia o grupo possa deixar de existir, por ter se tornado obsoleto num mundo de igualdade entre todos.

Por:

Ana Fontes – delegada líder do Brasil no W20

Júnia Nogueira de Sá – delegada do W20