*Texto enviado por Fernanda Bianchini

Neste dia 21 de março, data em que celebramos o Dia Internacional da Síndrome de Down, comemoramos aqui na AFB – Associação Fernanda Bianchini, não só muitas conquistas, como também muitos sorrisos. Costumamos dizer por aqui que as crianças, e os pais das crianças com este tipo de síndrome, nasceram com Cromossomos do Amor.

Fernanda com suas alunas adolescentes da nova turma de 2020

As crianças com Síndrome de Down são verdadeiramente especiais. São intensas, sorridentes, esforçadas e extremamente carinhosas. E são elas que me ajudam a lidar melhor com crianças e adultos com outros tipos de deficiências ou síndromes no meu dia a dia. É sempre um aprendizado. Elas sabem interagir e sabem enxergar como ninguém o que o outro realmente precisa em cada dinâmica. Elas sabem se ajudar e se motivar como ninguém.

São elas também que adoram os aplausos, e costumam ser as últimas a deixar os palcos. Fazem inúmeras reverências e aceitam os seus louros. Talvez, porque se esforçam muito para conquistá-los, e sabem que aqueles que estão ao seu lado também.

Nos bastidores do espetáculo Encantos (Teatro Sergio Cardoso, dezembro de 2017)

Hoje somos mais de 500 alunos apreendendo juntos na AFB, 60% são cegos, 30% têm outros tipos de deficiências e/ou síndromes e apenas 10% não apresentam nenhum tipo de deficiência, em geral são pessoas de baixa renda. Essa diversidade é importante para exercitarmos o que chamamos de “Inclusão às Avessas”.

Me lembro bem… o trabalho da AFB teve início há 25 anos. No começo atendíamos somente pessoas com deficiência visual. Dez anos se passaram e chegou até nós uma criança cadeirante, e foi ela que abriu a nossa mente e as nossas portas para trabalhar com outras deficiências e até síndromes múltiplas associadas.

Desde então, muitas crianças com deficiências motoras e intelectuais se juntaram a nós, formando um grupo coeso e forte, no qual aprender Ballet Clássico vai muito além do aprendizado com exercícios de barra, centro e diagonal. Atuamos com uma equipe multidisciplinar em paralelo que trabalha suas características de hiperextensão e também o seu fortalecimento muscular associado ao Pilates.

Turma com a professora Jessica Marchetti

E os resultados são surpreendentes, e encantadores. São aulas muito intensas, recheadas com muito amor e carinho, nos lembrando sempre que através da Arte podemos transformar lágrimas em sorrisos. Por isso, gostaria de deixar nesta data a minha mensagem de otimismo e especial atenção aqueles que têm suas crianças com Síndrome de Down em casa ou na família: elas são realmente capazes.

No ano passado eu perdi minha Tia Coca, a primeira pessoa com Síndrome de Down que conheci. Ela morreu aos 64 anos, idade muito além das expectativas de vida das pessoas com esse tipo de síndrome, e relaciono o fato ao seu estilo de vida. Ela era extremamente ativa, participativa e foi totalmente inserida na sociedade pela família. Frequentava todas as nossas festas, ia à igreja, tocava teclado e cantava no Coral. Por isso, eu verdadeiramente acredito que eles são capazes de ir muito mais além quando nós os acolhemos em todos os sentidos.

Meu muito obrigada a todas essas crianças, adultos e pais em minha vida!

*Fernanda Bianchini Saad, fisioterapeuta e bailarina, desenvolveu o método de ballet para cegos e pessoas com deficiência. É fundadora da Associação Fernanda Bianchini que completa este ano 25 anos de história.

*Fotos: Angela Rezé