Quando foi presa grávida, por tráfico de drogas, em novembro de 2009, Sirlene de Lima Domingues, hoje com 43 anos, achou que sua vida havia acabado. “Vou sair daqui tarjada como ex-presidiária. O que vou fazer lá fora?”, questionava-se. “Quando você está naquele lugar não tem muita opção. Você está ali jogada, abandonada. Não tem nada para fazer. É um depósito de gente”, descreve.

Em 2010, Sirlene teve a filha, Isabelly – atualmente com nove anos -, no Hospital Penitenciário. Mas foi em 2012 que suas perspectivas de vida começaram a mudar, quando ela começou a participar , dentro da Penitenciária Feminina de Sant’ana, em São Paulo, de um Clube de Leitura, promovido na época pela Editora Companhia das Letras, mediado pela então coordenadora do Núcleo de Incentivo à Leitura, Janine Durand, que propunha às detentas ler um livro por mês. Em reuniões mensais, elas discutiam o título com as voluntárias do projeto e escreviam uma resenha a respeito. “A gente conversava muito, lia as histórias, falava sobre os livros. Dependendo do livro e das histórias contadas, abriam-se nossos horizontes”, lembra.

Graças ao projeto, Sirlene sentiu-se motivada a tomar decisões que mudaram radicalmente, para melhor, sua vida. “Possibilitou meu desenvolvimento na escrita, me deixando mais familiarizada com as palavras, o que me ajudou muito quando me inscrevi e prestei o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), ainda dentro do presídio. Com o resultado de boas notas, adquiri uma bolsa de estudos de 100%, que me possibilitou cursar a faculdade de Farmácia”, conta.

Sirlene com a filha Isabelly, foto tirada ainda na prisão, no tempo em que participava do Clube de Leitura – Arquivo pessoal

Quatro anos após sair da prisão, em 2017, Sirlene se formava em Farmácia. Enquanto estudou, trabalhou como auxiliar de farmácia em hospitais e depois passou a trabalhar como farmacêutica em uma drogaria.

Depois de um ano, o que ela jamais imaginou em seus melhores sonhos – comprar sua própria drogaria – aconteceu. “Minha vida é cheia de milagres”, comenta . Um amigo pediu que ela fosse avaliar uma farmácia que estava interessado em comprar. Ele acabou desistindo do negócio e, semanas depois, o proprietário ligou oferecendo o negócio a Sirlene. Seu primeiro impulso foi declinar, pois não tinha capital nenhum, nem para pagar a entrada – o restante o proprietário parcelava.

Sirlene de Lima em sua farmácia – Foto: arquivo pessoal de Sirlene

Sirlene lembra que estava indo encontrar o vendedor da farmácia para dar sua resposta negativa quando a mãe lhe ligou. Disse que havia acabado de receber uma carta do Magazine Luiza disponibilizando um crédito de empréstimo de valor um pouco maior até que o da entrada necessária para fechar o negócio. Graças a isso Sirlene tornou-se proprietária da Drogaria Masai, em São Caetano, SP, em 2 de novembro de 2018. “Sou muito Cristã e durante o período em que estive na prisão me apeguei muito a Deus e até hoje ele tem sido meu melhor amigo. Ele e os livros me salvaram”, conclui a farmacêutica.

Remição em Rede

Grata, hoje Sirlene devolve o incentivo que recebeu ajudando ex-detentas que a procuram para aconselhamento, pois veem nela um exemplo de superação. E esse é um dos motivos pelo qual ela apoia o Projeto Remição em Rede,  criado em 2017, fruto de uma parceria entre o Grupo Mulheres do Brasil, por meio do Comitê de Cultura, a Fundação de Amparo ao Preso (FUNAP/Governo do Estado de São Paulo), a Jnana Consultoria e as Editoras Boitempo, Planeta, Record e Todavia.

Os personagens principais deste projeto são os detentos que escrevem resenhas. “São pessoas privadas de liberdade, que certamente não tiveram o direito humano à leitura garantido e que agora têm os livros como pontes, como uma possibilidade de esperança”, explica Janine Durand, atualmente líder do Comitê de Cultura, articuladora e voluntária do Programa Remição em Rede.

O projeto tem como base a Lei de remição de pena pela leitura, aprovada em 2013, e prevê que cada livro lido mensalmente pelo detento pode diminuir sua pena em quatro dias. O preso tem a possibilidade de ler 12 livros por ano e conseguir até 48 dias de remição da pena. Para isso, ele precisa ler a obra e apresentar uma resenha que será avaliada e encaminhada ao juiz regional para que seja concedida a diminuição da pena.

Orgulho

A história de Sirlene enche de orgulho as integrantes do Comitê de Cultura, que a convocaram para narrá-la pessoalmente durante a Reunião Geral do Grupo Mulheres do Brasil realizada no último 9 de maio.

A farmacêutica conta sua história, ao lado de Janine e Luciana, para o Grupo Mulheres do Brasil

Janine Durand conta que acompanha a trajetória de mãe exemplar, estudante e trabalhadora incansável de Sirlene desde que ela saiu da reclusão. “Recebi um convite para a sua formatura e uma carta enviada às vésperas da colação de grau: ‘As escolhas e suas consequências são de nossa responsabilidade, mas as influências ajudam bastante. O Clube de Leitura teve um papel fundamental na minha jornada reclusa, me proporcionou condições de me desvencilhar temporariamente daquele lugar. Ler não é apenas um meio de passar o tempo, mas também um modo de resgatar a vida’”.

Para Janine, o Clube de Leitura ofereceu a Sirlene uma brecha e ela se permitiu um salto, uma mudança de trajetória, uma possibilidade de se reinventar. “Ela foi capaz de transformar oportunidade e palavras em ações”, diz.

Para Luciana Gerbovic, também líder do Comitê de Cultura, essa história é uma demonstração concreta de que a leitura abre oportunidades – “e isso pode variar de pessoa para pessoa e de acordo com o tempo de cada um, por isso não se deve desistir”, frisa. “A leitura de literatura muda a observação do mundo, ajuda a pessoa a ler as entrelinhas e a se tornar mais crítica”, acrescenta.

Luciana pontua ainda que, assim como levou Sirlene para a farmácia, a literatura pode levar qualquer pessoa para a área que ela quiser, porque uma leitura refinada, sensível e crítica do mundo não se perde. “Quem lê literatura é também um profissional melhor em qualquer área. Com isso quero reforçar a minha crença inabalável no poder de transformação da literatura. Sirlene está aí para nos provar. E nossa luta é para que muitas ‘Sirlenes’ saiam do sistema prisional e venham ocupar um lugar digno na sociedade. Se alguém se transforma assim, nós todos nos transformamos. Por isso, não se trata ‘deles’ e ‘delas’, mas de todos e todas nós”, conclui Luciana.

*Por Sílvia Pereira