Depoimento de Kelly Castilho:

Eu nasci uma pessoa curiosa, de riso fácil, que se divertia com pouco, mas que sempre gostou de arte. Diferentes tipos de arte.

Nas escolas particulares por onde passei, fruto do empenho da minha mãe em busca de bolsa ou desconto nas mensalidades, sempre fui a única menina negra e tive que me esforçar para fazer tudo praticamente sozinha.

Minha mãe trabalhava o dia todo, meus irmãos também, teve uma época em que eu tive uma professora particular para me ajudar com a matemática. Mas no dia a dia, no caminho escolar a ser trilhado, havia somente eu mesma. Mas, já era maravilhoso ter o privilégio de estudar em boas escolas, o que na maioria das vezes não acontece com crianças negras.

Sou muito grata à minha mãe por tudo o que fez por mim. Uma mulher que lutou para que seus cinco filhos chegassem à universidade, havia incentivo do meu pai, mas ela foi quem fez acontecer. Sou caçula e tenho quatro irmãos mais velhos, e essas foram as primeiras barreiras da minha vida: as escolas majoritariamente ocupadas por brancos e ser a ‘menina’ da casa.

Nesta semana eu tive a honra de ser uma das palestrantes na Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Rio de Janeiro, em celebração ao Dia Internacional da Mulher. Esta é uma das instituições de maior prestígio do Brasil e reconhecida lá fora também.

Foi uma surpresa receber este convite para ser pioneira neste espaço, e ali contar a minha trajetória. A alta liderança desta instituição é composta por homens brancos. Eu sendo uma mulher, negra, mãe, publicitária, cineasta e executiva recebi a mensagem com um grande sorriso. Afinal, a Fundação queria me ouvir, ouvir uma pessoa que, de alguma forma, parecia que não se enquadraria nos moldes daquele local, pois não fiz Administração, nem Direito, nem Economia, mas queriam que a minha história fosse contada para os funcionários, diretores, gerentes, professores e etc.

Me senti muito feliz, para mim era um presente pelo reconhecimento do meu trabalho no audiovisual por tantos anos, 25 anos atualmente, e uma instituição tão tradicional como a FGV compreendeu que as portas precisam se abrir para diferentes olhares e pensamentos. Estar ali naquele espaço desbravando mais esse caminho foi fantástico. Ver o quanto os ouvintes estavam atentos tanto à minha palestra, como das outras quatro mulheres incríveis que ali estavam, me deu a sensação de que sempre estive no caminho certo.

Kelly Castilho – Imagem: arquivo pessoal

Muitas pessoas podem não entender o que é o cinema, o que é o audiovisual ou a publicidade. É difícil compreender a importância de um produtor que lida com grandes equipes e milhões, a importância de um diretor de arte que cuida de toda a estética de um filme seja publicitário ou cinematográfico, e faz a gestão de diferentes equipes ou de um diretor de filmes que realiza, sonha, envolve todo o time nesse sonho, para que o projeto aconteça da melhor forma.

A arte deixa no ar um ponto de interrogação na mente de várias pessoas, pois não é um trabalho convencional, e quando não se conhece algo, normalmente não se dá muita importância. É mais fácil compreender o dia a dia de um funcionário de banco ou de uma grande multinacional. Mas, o cinema é um dos canais por onde se enxerga o mundo, e a alma de todos os seres de diferentes culturas que nele habitam. Ser reconhecida no templo da Administração enquanto profissional, que fez a sua carreira na publicidade e no cinema, sendo mulher e negra foi lindo. Isso prova que há empresas e instituições atentas às mudanças e percebendo o quanto a diversidade de raças e a equidade de gênero são importantes para a construção de um mundo mais igual para todos, e consequentemente mais saudável para se viver.

*Kelly Castilho é cineasta, publicitária, executiva e uma das líderes do Comitê de Igualdade Racial do Grupo Mulheres do Brasil