Histórias de vítimas de violência doméstica emocionaram a plateia presente ao auditório Santander, em São Paulo, durante o debate ‘Combate à Violência Contra a Mulher’, que marcou o lançamento do Programa Plugar, no dia 27 de junho.

O rosto inchado por fraturas da paisagista Elaine Caparroz estampou reportagens por toda a imprensa no início deste ano. Drogada e abusada sexualmente, ela foi espancada por um homem que recebeu em sua própria casa. Sofreu outras fraturas, perfuração da pleura, descolamento de retina, passou a lidar com problemas renais, entre outras sequelas das quais ainda tenta se recuperar.

Elaine Caparroz dá seu depoimento ao lado de Luiza Trajano e Maria da Penha – Foto: Náira Messa

Corajosa, Elaine compareceu ao debate “Combate à Violência Contra a Mulher”, organizado pelo grupo Mulheres do Brasil no auditório Santader, em São Paulo, no último dia 27 de junho, como parte do Programa Plugar, para dar seu depoimento. Sua história de violência começa quando ela aceita o convite de um jovem de boa aparência numa rede social. Após oito meses de conversas a distância, a impressão era de que já tinha uma amizade ali, de que já o conhecia. “Hoje sei que isso é mentira”, diz.

A paisagista ainda resistiu às primeiras investidas do novo “amigo” para se encontrarem, por considerá-lo muito novo para ela. Mas ele insistiu e mostrou-se carinhoso, atencioso, interessado em compromisso. Quando a convidou para sair, pensou: “por que não?” E marcou o encontro no lugar onde se sentia mais segura no mundo. Em sua casa, em algum momento do bate-papo, começou a ficar com a sensação de que estava em um sonho. E apagou. Acordou sendo agredida.

Enquanto sofria a violência, Elaine teve certeza de que ia morrer, mas decidiu que, enquanto tivesse vida, tentaria se defender. E gritaria. Gritou tanto que até hoje está quase sem voz. E os vizinhos chamaram a polícia. Foi o que a salvou.

Preso, o agressor alega que sofreu um surto psicótico e só responde pela agressão física. Não houve tempo de fazer exame para constatar estupro e drogas em seu organismo. “Infelizmente, eu sei que fui drogada e que teve o ato, mas não ficou comprovado”, lamenta.

Súmula da OAB

Elaine lembra que, antes da agressão, via publicações sobre violência doméstica nas revistas, com fotos de mulheres desfiguradas, e tinha pena, mas achava que era uma coisa distante. “Hoje eu sei que não é. Acontece com qualquer mulher e muitas têm vergonha de falar. Eu não. E nunca achei que a culpa era minha”, diz.

Ela acha que não basta só ensinar as mulheres a se prevenirem. Acredita que deveriam dificultar muito a vida dos agressores, tornar a violência contra a mulher um crime inafiançável.

A repercussão que teve o caso de Elaine inspirou uma súmula da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), que determinou que advogados com alguma denúncia de violência doméstica não conseguirão o registro da Ordem.

Maria da Penha – Foto: Náira Messa

O relato também assombrou Maria da Penha, que acha importante a imprensa estar dando mais visibilidade aos casos de violência contra a mulher. “Isso é importante para que outras mulheres entendam que a violência doméstica existe com ou sem marido. Basta dar uma oportunidade a um homem que tenha esse instinto. Ele vai tentar matar aquela mulher sem nenhum motivo”, diz.

Tocante narrativa

O debate teve outros momentos arrepiantes e inspiradores. A professora universitária e vice-presidente do Instituto Maria da Penha, Regina Célia Barbosa, por exemplo, emocionou os presentes ao ler uma narrativa tocante sobre a violência sofrida por sua fundadora – Maria da Penha ficou tetraplégica após ser baleada pelo próprio marido, em maio de 1983.

Regina Célia Barbosa – Foto: Náira Messa

Primeiro, apresentou o site da entidade e lembrou o contexto sociocultural em que foi fundada. Também mostrou dados que confirmam: a Lei Maria da Penha ainda não tem alcance sustentável e suficiente nas áreas interioranas. Até detalhou o tempo que leva para uma mulher do interior apresentar sua narrativa de violência à Justiça.

Falou, por fim, sobre uma das causas pelas quais o Instituto luta: a das crianças. “Vítimas invisíveis da violência doméstica – as que acompanharam desde o ventre a mãe sendo violentada, que estavam em situação de orfandade anunciada. A mãe, acreditando no poder público, denunciou, mas a falta de celeridade, a tolerância – amiga da negligência – fez com que ela fosse assassinada. Isso cria um ressentimento cívico muito grave”, conclui, também sendo aplaudida.

Depoimento em vídeo

Vítima de um relacionamento abusivo, Jéssica Aroni teve sua entrevista, feita por Luiza Trajano, exibida em vídeo durante o debate. Discorreu sobre a importância de as pessoas aprenderem a identificar sinais de que se está em um relacionamento abusivo, como o que a isolou da família e de todos os seus amigos. Também detalhou as estratégias das quais o ex-companheiro se utilizava para manipulá-la, usando seus pontos fracos. “Comecei a ficar completamente hipnotizada. Eu não queria saber de mais ninguém na minha vida. Só dele”, contou.

Lembrou que sua filha começou a achar tudo muito estranho, mas confiou no seu julgamento todas as vezes em que tentou interferir e a jovem a afastou. “A vítima precisa muito de apoio e não julgamento. É importante saber que quem está nesse ciclo não se enxerga. Mas basta pegar na mão dela e dizer: ‘conta comigo’. Uma hora ela vai pedir ajuda”, disse.

Luiza aproveitou para contar que, dentro de sua rede de lojas, ajuda muitas mulheres a se livrarem de ciclos de violência e de relacionamento abusivo. E muitos homens a ajudam neste trabalho. Reforçou o slogan de uma das campanhas de Combate à Violência Contra a Mulher, de que “em briga de marido e mulher se mete a colher sim!”. “A violência é a única coisa que não tem preconceito. Ela acontece em todos os lugares”, concluiu.