O Grupo de Pesquisas em Direito, Gênero e Identidade (GPDG) da FGV Direito SP concluiu o estudo “As Companhias Brasileiras são socialmente sustentáveis?”, no qual analisou a evolução de 62 empresas listadas no Ibovespa entre 2012 e 2016 (os últimos disponíveis quando do início da elaboração do banco de dados).

O trabalho foi apresentado em um Fórum, dia 13 de novembro, no auditório da FGV, São Paulo, e reuniu nomes como Luiza Helena Trajano, presidente do Conselho de Administração do Magazine Luiza e do Grupo Mulheres do Brasil, que explanou sobre as práticas de sustentabilidade social da empresa – diversas ações pioneiras contribuem para que o Magazine Luiza figure há anos consecutivos no ranking das melhores empresas para se trabalhar. Oded Grajew, presidente do Instituto Ethos, que falou sobre a evolução da sustentabilidade social no Brasil; e Adriana Carvalho, gerente de projetos da ONU Mulheres, que contou um pouco sobre a experiência da organização com o Programa Ganha-Ganha.

Luiza Helena Trajano apresenta o case Magazine Luiza – Foto: Divulgação

Houve ainda uma mesa de debates com Graziele Parenti, da BRF, José Vicenti, da Universidade Zumbi dos Palmares, Aline Cardoso, secretária de desenvolvimento econômico da Prefeitura de São Paulo, e Flávia Scabin, coordenadora do Centro de Direitos Humanos e Empresas da FGV. O debate foi mediado por Lígia Pires Pinto, coordenadora do estudo e do FGV-GPDG.

Para a coordenadora Ligia, o tema é ainda mais relevante no contexto atual: “Se a sustentabilidade social é um olhar para o desenvolvimento das pessoas e grupos sociais diversos, dentro da companhia e no seu entorno, precisamos aprofundar nossos dados sobre o tema. O Brasil é pais em desenvolvimento, possui índices altos e crescentes de desigualdade social. As externalidades sociais negativas causadas pela atividade empresarial têm o potencial de aprofundar ainda mais este quadro de miséria, estratificação e exclusão sociais. Da mesma forma, externalidades sociais positivas e iniciativas corporativas voluntárias, aliadas a políticas governamentais são excelentes instrumentos num contexto em que muitos não conseguem satisfazer necessidades básicas, como alimentação, água, moradia e saneamento.”.

A principal conclusão é que não houve avanços significativos na área da sustentabilidade social no período, ao contrário do avanço da sustentabilidade ambiental, tão observada e debatida. No entanto, o desempenho em adoção de iniciativas de sustentabilidade das companhias mistas é 36% melhor que o das companhias privadas e o desempenho das companhias que foram privatizadas é 15% melhor do que as companhias que sempre tiveram controle privado. Na distribuição das empresas, 55 são de controle privado e 7 são de controle misto, sendo que das empresas de controle privado, 7 passaram por processos de privatização.

Lígia Pires, Luiza Helena e Heloisa Bianquini – Foto: Divulgação

“Esse dado é significativo pois aponta um papel importante da iniciativa pública na adoção e coordenação de projetos socialmente sustentáveis no Brasil. A exposição de casos de corrupção é crescente, viu-se a criação de cargos e o aparelhamento das estatais em função de interesses políticos, tudo isso abala a reputação das estatais, mas não é possível ignorar este efeito positivo”, destaca Ligia.

Se considerar o ramo de atividade, o setor terciário tem a melhor média de pontuação em sustentabilidade, 61 pontos, contra 56 do setor secundário e 51 do setor primário. Isso significa que o setor terciário possui desempenho 16% melhor do que o setor primário na adoção de iniciativas de sustentabilidade. Entre as empresas analisadas, 15% são do setor primário, 51% do setor secundário e 34% do setor terciário.

Entre os setores de atividade, as instituições financeiras são as que têm maior desempenho em adoção de iniciativas de sustentabilidade, com 80 pontos, seguida por telecomunicações (70 pontos), energia elétrica (69), veículos e peças (65) e alimentos e produção agrícola (62). Foram desconsiderados os setores com apenas 1 empresa representante, por possuírem um universo amostral muito reduzido.

Na outra ponta, os setores com pior desempenho são serviços especializados (32 pontos), siderurgia (33), papel e celulose (41), construção civil e infraestrutura (42), e bebidas e fumo (44). Isso significa que o setor mais bem colocado possui desempenho 60% melhor que o mais mal colocad0.

Apesar de terem mais iniciativas proporcionalmente que a iniciativa privada, constatou-se que as companhias mistas têm pior reputação, o que pode ser atribuído aos escândalos de corrupção no cenário nacional.

Segundo Heloisa Bianquini, pesquisadora do projeto, “Dentre as 10 iniciativas mais empregadas pelas companhias, metade é de cunho estritamente ambiental. Das cinco restantes, 3 são de caráter filantrópico (investimento em projetos sociais diversos), 1 é relativa à sustentabilidade na governança (adoção de código de conduta) e a outra, ao monitoramento de diversidade (censo do número de colaboradores por gênero)”.

Colaboração: Rui Santos, assessoria de comunicação da FGV