Dados estatísticos comprovam que ainda há muitas barreiras e desafios no Brasil e no mundo a serem superados para se atingir a equidade de gêneros em todos os âmbitos, principalmente no mundo do trabalho. Para estimular o diálogo sobre a inclusão da mulher, focado em tecnologia e ciência, a ONU Mulheres definiu como tema para este Dia Internacional da Mulher a igualdade de gêneros, com a campanha Pensemos em igualdade, construção das mudanças com inteligência e inovação.

As mulheres representam a maioria da população brasileira. Num país de aproximadamente 208,5 milhões de habitantes, 51,5% são do sexo feminino, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE- 2018). Mesmo sendo maioria absoluta, a mulher brasileira e, consequentemente, toda a sociedade, vivem diariamente os impactos negativos da desigualdade de gênero. O estudo de Estatísticas de Gênero do órgão aponta que as mulheres estudam mais que os homens, trabalham em média três horas por semana a mais, e ainda assim ganham 23,5% a menos.

De acordo com dados globais da Organização Internacional do Trabalho – OIT, 75% dos homens, a partir de 15 anos, estão inseridos no mercado de trabalho, contra 48,5% das mulheres. Esta diferença é maior em países árabes, do sul da Ásia e norte da África, muitas vezes em decorrência de aspectos culturais que restringem as opções de trabalhos remunerados para as mulheres.

O papel da mulher é indispensável, devendo ser atuante, protagonista e participante ativa da sociedade, somando sua força à dos homens, diz Luiza Helena Trajano, empresária e presidente do Grupo Mulheres do Brasil. “Apesar de termos vencido muitas barreiras, ainda temos muito a conquistar. São diversas as dificuldades, como salários desiguais para as mesmas funções, além de ser pequena a quantidade de mulheres ocupando cargos no topo de suas carreiras. É preciso derrubar todos os preconceitos e paradigmas que ainda existem”, afirma a executiva.

Luiza Helena Trajano – Foto: Angela Rezé @estudiophotobyangel @angelarezefotografia

Trajano destaca que a defesa das mulheres contra a desigualdade salarial, a violência, o racismo e todas as formas de discriminação são prioridades no movimento que reúne mais de 23 mil ativistas voluntárias no Brasil e no exterior. “Por meio das ações de comitês como Combate à Violência contra a Mulher, Igualdade Racial, Educação, Saúde e Empreendedorismo, aliados à dedicação das mulheres, atuamos firmes em nosso propósito de alcançarmos um país mais justo, que respeite a diversidade, sempre aberto a dialogar, colocando como foco principal o estímulo ao protagonismo feminino”, afirma, referindo-se às ações do Grupo Mulheres do Brasil.

Para Glória Brunetti, médica infectologista e paliativista, a desigualdade de gênero se manifesta em várias facetas da sociedade. “É cobrado da mulher, de um modo desigual em relação ao homem, que dê conta de demandas e responsabilidades da casa, e também em relação aos filhos e idosos, o que muitas vezes contribui para acentuar a desigualdade de sua participação no mercado de trabalho”, explica a médica.

Brunetti é também líder do Comitê de Saúde do Grupo Mulheres do Brasil, e ressalta que a igualdade de gêneros é uma das pautas que está em prioridade nos temas discutidos e colocados em prática pela organização. “Nosso propósito é transformar o Brasil usando a força feminina e aproveitando as várias iniciativas em diversos campos que já existem”, relata.

Como uma das ações já realizadas pelas mulheres voluntárias do comitê, ela destaca o projeto Saúde na Escola, desenvolvido na Escola Estadual Odair Martiniano – Mandela, na periferia de São Paulo, em que os alunos foram atendidos com triagem oftalmológica e doação de óculos (parceria com a Fundação Rubem Cunha), triagem de fonoaudiologia e oficinas de nutrição. Os professores também foram assistidos com apoio emocional e psicológico, entre outras atividades impactantes. “Participando destas ações, além de fazer a diferença na vida das pessoas desta comunidade, aprendemos a ver, a conviver e a entender a realidade dos jovens e crianças da periferia de nossa cidade”.  A médica ressalta que essas iniciativas contribuem também para minimizar a desigualdade de gênero. “Fica mais evidente a importância da educação e a promoção da saúde física e mental como ferramentas de ascensão social”, relata a líder.

Glória Brunetti – Foto: Angela Rezé @estudiophotobyangel @angelarezefotografia

Para a advogada e líder do Comitê de Igualdade Racial do Grupo Mulheres do Brasil, Elizabeth Scheibmayr, nos últimos anos houve um avanço quando se fala em igualdade de gênero, mas ainda há muito a ser feito. “É necessário desconstruir estereótipos para que possamos alcançar a igualdade de gênero. As mulheres ainda recebem salários menores, têm uma carga de trabalho maior, são vítimas de violência doméstica e feminicídio”, diz a líder.

Scheibmayr destaca que a desigualdade de gênero voltada para a mulher negra é ainda maior. “As mulheres negras não estão representadas nos espaços de poder: o número de eleitas é baixíssimo (5% na eleição para vereadores), apenas 0,4% em cargos de liderança. Se temos um baixo número de mulheres nas áreas das ciências exatas e tecnologia, o que se dirá de mulheres negras”, diz a líder. Ela explica ainda que o compromisso do comitê é de promover o aumento das mulheres negras em cargos de liderança. “Para alcançarmos nosso objetivo precisamos falar sobre racismo, combater a tese da meritocracia, apoiar as ações afirmativas e conversar com os diversos atores da sociedade civil e do Estado para que, por meio do diálogo construtivo possamos avançar nesse tema”, afirma a advogada.

Entre alguns projetos que o Comitê de Igualdade Racial vem desenvolvendo estão o Fórum de Igualdade Racial, a Cartilha Tocando no Assunto, o Acelerador de Carreiras, e o Comunidade Empodera. “Construímos uma estratégia de conscientização e inclusão. Para isso, trabalhamos com alguns pilares de educação, formação e conexão com as iniciativas pública e privada. Com essas pequenas ações vamos causando impacto e plantando sementes para a transformação da sociedade para que tenhamos uma igualdade de gênero e de raça”, conclui Scheibmayr.

Elizabeth Scheibmayr – Foto: Angela Rezé @estudiophotobyangel @angelarezefotografia

No campo da Ciência e Tecnologia, de acordo com a ONU, as mulheres estão representadas de forma insuficiente, fato que prejudica o “desenvolvimento de inovações sensíveis ao gênero, que permitam alcançar benefícios transformadores para a sociedade”.

Com o propósito de valorizar e estimular o conhecimento ligado à Ciência, à Tecnologia e à Inovação, por meio da ampliação das conexões humanas e da equidade de gêneros, Glória Brunetti estruturou, juntamente com uma equipe de voluntárias, um Grupo de Trabalho – Ciência &Tecnologia, no Grupo Mulheres do Brasil. “Constatamos que nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática há poucas mulheres atuando no mundo. Elas somam apenas 35% dos alunos matriculados nas Universidades em cursos do segmento. E quando sabemos que estas áreas geram muitas oportunidades de trabalho, o assunto é ainda mais preocupante”, explica Brunetti.

O grupo de trabalho vem desenvolvendo programas que estimulam meninas e adolescentes a se interessarem pelo assunto, como o projeto Hora do Código, que é uma introdução à Ciência de Computação, com palestras e workshops de iniciação científica, criado para desmistificar a programação e mostrar que qualquer pessoa pode aprender e ampliar a participação nesta área da ciência. Foram atendidas nesse programa, em dezembro de 2018, 70 meninas de 11 a 16 anos, provenientes de quatro escolas públicas e um Telecentro de São Paulo.

Meninas participantes do programa Hora do Código
Foto: Divulgação

Luiza Trajano vê com otimismo a valorização de mulheres cientistas no mercado profissional, se destacando, e alerta sobre a crença limitante que pode impedir que mais meninas e mulheres optem por uma carreira profissional no campo da Ciência e Tecnologia. “Ainda existe o estigma de que é uma área árdua, de que é ‘trabalho para homem’. Mas, aos poucos, isso está mudando, com todo esse movimento de conscientização. Há mulheres se destacando como cientistas em todo o mundo e também aqui no Brasil. Já percebemos também um movimento das empresas nesse sentido de buscar mais profissionais mulheres em suas áreas de tecnologia”, comemora.

Que mensagem você deixa para as mulheres neste 8 de março?

Luiza Helena Trajano

Acredito no equilíbrio das forças feminina e masculina. Por isso, é importante termos ao nosso lado o homem que nos apoie, que respeite os nossos direitos e reafirme ainda mais a nossa luta e o nosso engajamento. Tenham sempre em mente: mulher é amiga de mulher sim e, juntas, somos mais fortes! 

Elizabeth Scheibmayr

Minha mensagem para todas as mulheres é ubuntu. Somos mulheres, somos diversas, cada uma com sua história e em seu momento. Ubuntu é uma palavra que apresenta significados humanísticos como a solidariedade, a cooperação, o respeito, o acolhimento, a generosidade, entre muitas outras ações que realizamos em sintonia com a nossa alma (com o nosso ser interno), buscando o nosso bem-estar e o de todos à nossa volta. “Uma pessoa é uma pessoa por meio de outras pessoas” (significado de ubuntu, na língua africana Zulu).

 Glória Brunetti

Desejo a cada mulher do nosso Brasil que se mantenha forte, como referência de acolhimento e sapiência, luz na escuridão como nós, mulheres, sabemos ser. Não adormeça sua indignação, não amorteça. Mantenha a chama acesa!