Por Raquel Preto, líder do Comitê de Combate à Violência contra a Mulher

Sobre a Jornada Pedagógica e a imperiosa necessidade da Mobilização civil e cidadã

Nesta última sexta-feira, 28 de junho, diversos  Centros Educacionais Unificados (CEUs) – equipamentos públicos voltados à educação criados pela Secretaria Municipal de Educação de São Paulo e localizados nas áreas periféricas da Grande São Paulo – , receberam durante todo o dia milhares de professores da rede municipal de ensino para as Jornadas Pedagógicas da Cidade de SP, atividade estruturada para colaborar com o aprimoramento do corpo docente municipal.

Equipe Comitê Combate à Violência contra a Mulher e participantes da Jornada Pedagógica – Foto: Divulgação

Durante toda a sexta-feira, no CEU Navegantes, num extremo ponto distante desta gigantesca cidade, o Comitê de Combate à Violência contra a Mulher do Grupo Mulheres do Brasil, que lidero há alguns anos, atualmente contando com as valiosas Cyntia De Labio, Gisele Agnelli, Fabiana Verde e Elizabete Scheibmayr, afora Lize, Carol, Cláudia, Luciana e o fantástico Flávio Urra, trabalhou o tema “Igualdade de Gênero: o fim da Violência contra as Mulheres”, por meio de atividades diversas, dinâmicas e sensibilização, de modo a impactarmos aproximadamente 1.000 professores que, divididos em dois turnos, manhã e tarde, interagiram conosco. Pretendíamos ser capazes de sensibilizar esses grupos para esta abordagem temática junto às crianças com as quais trabalham (de 0 a 6 anos).

O Comitê se organizou para desenvolver atividades de sensibilização quanto à questão de igualdade de gênero, para que professores e professoras – sendo a maioria absoluta de mulheres, cerca de 95% do público que passou pelo CEU Navegantes era de professoras – o nosso desafio era sensibilizar esse público para o tema, porque a desigualdade de gênero é a origem de todas as formas de violência contra a mulher.

Portanto, se conseguimos conscientizar as pessoas sobre os cuidados que precisamos ter com as crianças para que esta igualdade de gênero seja alcançada, nós estamos justamente atuando na raiz do problema da violência. Só há violência nessa escala porque a desigualdade de gênero é gigantesca, porque os homens são mais valorizados do que as mulheres, porque eles ocupam os espaços de poder, de decisão, e as mulheres ocupam mais os espaços domésticos, os espaços privados. E essa voz da mulher nos espaços públicos tende a ser menos valorizada, temos que corrigir isso.

Iniciamos com uma apresentação do Comitê, falamos sobre nossa forma de atuação, nossos projetos e em seguida fizemos uma dinâmica provocativa para tentar fazer as pessoas pensarem nessa igualdade de gênero e no movimento feminista. E, como é recorrente, a maioria das pessoas não sabe direito o que é o movimento feminista, a maioria sequer sabe que o feminismo defende apenas igualdade de direitos e oportunidades, nada mais. E as pessoas não sabem e também não se lembram que as mulheres só votam atualmente porque foi o movimento feminista que lutou para isso.

CEU Navegantes, auditório lotado – Foto: Divulgação

Depois disso, desenvolvemos uma atividade baseada em um texto extraído do livro da escritora nigeriana Chimamanda, “Para educar crianças feministas”,  que aponta etapas sobre como abordar o assunto com crianças, sendo que os primeiros 10 passos focam em crianças menores, como por exemplo, dicas de não fazer distinção de brinquedos ou de cores por gênero.

Fizemos em seguida uma outra dinâmica, na qual projetamos no telão imagens de um livro de 1977, chamado “Os homens e as mulheres”, para crianças, cujas gravuras trazem mensagens subliminares mostrando diferenças de tratamentos e expectativas entre homens e mulheres. Convidávamos um trio de participantes do auditório para darem suas impressões sobre as imagens e isso provocava diferenças de visões e todos interagiam. Fechamos essas atividades convidando alguns professores para compartilhar alguma boa prática que já adotam na sua sala de aula e que tenha a ver com o tema, ou algum professor que tenha tido alguma ideia que possa ser colocada em prática, em função das duas dinâmicas.

Tivemos, por fim, uma palestra de 30 minutos com o psicólogo e cientista social Flávio Urra, que é o coordenador do projeto “E agora José?”, e parceiro do Comitê de Combate à Violência contra a Mulher – Comitê Maria Bonita, no Projeto Lampião, sobre a ‘nova masculinidade’ e a necessidade de derrubarmos a chamada ‘masculinidade tóxica’. Essa abordagem que ele deu leva em conta a sua experiência trabalhando com homens agressores e foi, portanto, um compartilhamento de ideias e experiências que ele teve ao longo de 20 anos. Ele conseguiu mostrar como a desigualdade de gênero leva a essa masculinidade tóxica e, consequentemente, à concretização de violências diversas contra as mulheres.

Palestra do psicólogo e cientista social Flávio Urra – Foto: Divulgação

Encerramos fazendo algumas digressões sobre a importância de somarmos esforços todos os dias para mantermos a atenção e a vigilância com relação a posturas que nós temos que evitar dentro das nossas casas, nas salas de aula e que são inconscientemente posturas de contexto de desigualdade de gênero. Temos que nos policiar porque crianças seguem exemplos e quando nós erramos no comportamento de uma criança, ela aprende o errado.

Depoimento da professora Maria das Graças que participou de uma das palestras do Comitê:C

Uma das dinâmicas de sensibilização conduzidas por Raquel Preto: