“Burnout não é o fim, mas um freio, como todas as doenças são”. A fala com que a jornalista e especialista em Bem-Estar da Mente Izabella Camargo concluiu a palestra “Como encontrar limite em um mundo sem limites”, proferida na última terça-feira (28) na sede paulistana do Grupo Mulheres do Brasil, sintetiza o que a Síndrome de Burnout representou em sua vida.

O distúrbio psíquico de caráter depressivo, geralmente ligado à vida profissional e precedido de esgotamento físico e mental, foi o que fez Izabella parar de sujeitar seu corpo e sua mente a estresse contínuo, por conta das demandas que aceitava em seu trabalho. É verdade que o freio custou seu emprego – foi demitida na volta da licença-saúde que tirou para se tratar, o que lhe rendeu uma posterior indenização trabalhista –, mas também lhe possibilitou a escolha de um novo estilo de vida, mais saudável física e mentalmente.

Hoje, Izabella soma o autoconhecimento propiciado pela doença ao conhecimento adquirido em um curso de especialização para ajudar outras pessoas a identificá-la ou preveni-la. Começa explicando que Burnout não é uma simples doença, mas um conjunto delas, e não é nova como sua recente nomenclatura sugere. Ocorre há muito tempo, chamada por outros nomes, como estafa ou neurastenia.

Fátima Macedo, do Comitê de Saúde e líder de Apoio Emocional, e Izabella Camargo – Foto: Divulgação

Diagnosticada, atualmente, em 20 milhões de brasileiros, a Síndrome de Burnout é prima-irmã de outras “doenças invisíveis” de nosso século, como a depressão (11 milhões de brasileiros) e a ansiedade (quase 19 milhões). Compartilha com elas o ônus do preconceito, sempre originado na falta de informações de quem as considera frescuras. “A gente não tem empatia pelo que a gente não vê [por isso o termo ‘doenças invisíveis’]. Ninguém fala para uma pessoa que está se recuperando de uma cirurgia ou de um membro quebrado: ‘Reage, levanta dessa cama, vai andar!’”, exemplifica Izabella.

Colapso

Para combater a desinformação, a jornalista compartilha, em suas palestras, detalhes de sua experiência. Conta que a demora em receber o diagnóstico a envolveu numa espiral de sintomas, que só pioravam e se multiplicavam com o tempo. Começou com enjoos, tonturas, quedas de pressão, crises de enxaqueca, tremedeiras nos olhos, quedas de cabelo e manchas na pele, com os quais lidava se automedicando. Quando passou a ter falta de ar, fadiga crônica, problemas intestinais e de estômago, começou a se consultar com médicos. Passou por cinco especialistas, que trataram os sintomas sem conseguir relacioná-los à causa legítima.

Os sintomas continuaram evoluindo. Izabella começou a ter problemas cardiovasculares, transpiração excessiva, taquicardia, crises nervosas e de choro, agressividade, dificuldade de elaborar raciocínio e para dirigir e braços adormecidos. Um “apagão” de memória que teve no trabalho a levou a, finalmente, procurar um psiquiatra, que deu o diagnóstico de Burnout. Entre os exames que ele pediu foi o que mede o nível de cortisol – o hormônio do estresse – no organismo. “Estava em 31, quando o normal é em torno de 16”, lembra a palestrante.

Durante e após o tratamento, a jornalista estudou muito sobre a doença. Descobriu que algumas crenças compartilhadas, reforçadas por ditados como “Ninguém morre de trabalhar”, “Dormir é para os fracos, vou dormir quando morrer”, “O que você faz da meia-noite às 6h?”, por exemplo, contribuem para o estresse excessivo que muitos de nós aceitam em seus cotidianos profissionais.

Concluiu também que as vítimas da síndrome compartilham características em comum: gostam de resolver problemas; são responsáveis e perfeccionistas; têm profissões nas quais não podem ou não deveriam errar (médico, enfermeiro, piloto, policial, bombeiro, professor, jornalista, etc); saem do trabalho, mas o trabalho não sai delas; vivem em ambientes de tensão constante; acumulam funções. “Também cheguei à conclusão de que só tem Burnout quem ama o que faz, tanto que esquece de si mesmo”, diz Izabella.

Fátima Macedo dá as boas-vindas às participantes, que lotaram a sede do Grupo Mulheres do Brasil – Foto: Divulgação

Soluções

Baseada em sua experiência, Izabella recomenda cinco passos básicos a serem seguidos por quem começa a sentir os primeiros sintomas da Síndrome: ter autocuidado; buscar ajuda; fazer uma “atualização de identidade”; manter qualidade e quantidade suficientes de sono; e eliminar alguns compromissos de sua rotina.

Na questão do autocuidado, ela aconselha evitar as “compensações” que nos damos pelo estresse. Exemplos: excesso de comida, de bebida, de medicamentos. “Remédio não cura, só trata os sintomas pra gente continuar se exigindo”, alerta. A ajuda pode vir de um psicólogo, de um psiquiatra ou até de um pastor religioso. “Alguém precisa te ouvir”, frisa.

A “atualização de identidade” consistiria numa revisão de hábitos baseada em nossas habilidades atuais – “Se eu tentar fazer as mesmas coisas que fazia aos 20 anos não vai ser legal. A gente perde algumas habilidades com o tempo, mas ganha outras”, explica a jornalista.

Sobre a importância de dormir bem, ela lembra que, para atletas de alta performance, o sono é contabilizado como tempo de treinamento, porque influencia fatalmente nos resultados.

Já o quinto passo, de eliminar compromissos, depende muito de treinarmos o ‘não’. “O colapso pode ocorrer por excesso de ‘sim’”, pontua a jornalista, referindo-se à dificuldade que muitos de nós temos de recusar mais tarefas quando já estamos sobrecarregados.

Por fim, a palestrante lembrou que respirar, se exercitar, ter lazer e comer bem fazem parte de qualquer receita de qualidade de vida.

Por Sílvia Pereira