Manter hábitos preventivos, cancelar qualquer viagem à China e evitar alarmismos são as principais recomendações da médica infectologista e líder do Comitê de Saúde do Grupo Mulheres do Brasil, Glória Brunetti

Cancelar viagens agendadas à China, primar por hábitos básicos de saúde (veja lista ao final deste texto) e, mais importante: evitar alarmismo. São as principais recomendações da médica infectologista e líder do Comitê de Saúde do Grupo Mulheres do Brasil, Glória Brunetti, para prevenir a contaminação pelo novo coronavírus (WN-CoV), que já fez mais de 300 mortos entre mais de 14 mil casos confirmados na China, de dezembro passado até o momento.

Também há casos confirmados em mais de 20 países como no Reino Unido, em Hong Kong, Macau, Taiwan, Tailândia, Estados Unidos, Austrália, Japão, Malásia, Cingapura, França, Coreia do Sul, Vietnã, Canadá, Alemanha e Nepal. Dia 30 de janeiro último, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou Emergência de Saúde Pública de interesse internacional. “O governo chinês está lutando muito com seus profissionais para manter a doença sob controle e dar assistência a seu povo. Também estão ocorrendo casos esporádicos [em outros países] de pessoas que estiveram na China. Mas todas as nações devem estar preparadas para monitorar, manter a OMS informada de todos seus dados e ter plano de ação, caso se alastre a epidemia ”, informa a médica.

No Brasil investiga-se, atualmente, 16 casos suspeitos, mas não houve nenhuma confirmação até agora. Glória Brunetti recomenda que, principalmente pessoas que viajaram recentemente à China, especialmente nos últimos 14 dias antes dos sintomas, procurem um serviço de saúde ao apresentar febre, tosse, falta de ar. O diagnóstico da doença é feito por exames laboratoriais realizados por biologia molecular, que identificam o material genético do vírus em secreções respiratórias. Pretende-se que os resultados sejam obtidos em 72 horas.

Hábitos simples podem evitar a propagação do vírus – Foto: Divulgação

A infectologista explica que o quadro clínico do coronavírus é basicamente respiratório.  “Assemelha-se a vários tipos de resfriados e gripes. E vai se manifestar como tal, na maioria das pessoas infectadas. Ele pode causar quadros mais graves com pneumonias severas em algumas pessoas geralmente idosas, acima dos 70 anos; pessoas que tenham algum tipo imunossupressão ou em tratamento, como oncológico, ou recebendo drogas imunossupressoras; pessoas que têm alguma comorbidade importante, como diabetes, hipertensão arterial, doenças autoimunes. Essas pessoas podem apresentar um quadro grave, necessitando de internação hospitalar”, alerta a infectologista. A presença deste vírus é recente e, de acordo com a médica, são necessários mais estudos para estabelecer toda a história natural da doença.

O tratamento visa a melhora do estado geral do paciente, pois não há um medicamento específico para combater o vírus, assim como não há vacina para preveni-lo. As indicações são de repouso e ingestão de líquidos, além de medidas para aliviar os sintomas, como analgésicos e antitérmicos. Nos casos de maior gravidade, que evoluíram com  pneumonia e insuficiência respiratória, podem ser necessários atendimentos intensivos respiratórios e sistêmicos em Unidade de Terapia Intensiva-UTI.

O vírus

Segundo Glória, o coronavírus é de uma grande família de vírus que atinge muitos animais. Cada espécie tem vírus que já está adaptado para aquele organismo. O atual coronavírus surgiu na metrópole chinesa Wuhan, com 11 milhões de habitantes, possivelmente em mercado de frutos do mar e animais vivos. “Cobra e morcego, por exemplo, fazem parte da cultura culinária deles. Embora ainda sem confirmação científica, pode ter começado ali a transmissão de animal para o homem”, comenta Glória. Mutações no vírus tornaram possível sua transmissão de um humano para outro. A transmissão ocorre pelo ar, via secreções aéreas do paciente infectado, ou por contato pessoal ou indireto com secreções contaminadas.

Porque trata-se de uma doença com estudos ainda em andamento, ainda não se tem certeza do seu período de incubação (tempo decorrido entre a exposição ao vírus e a manifestação dos primeiros sintomas da doença). “Está parecendo ser de até duas semanas, mas isso também vai depender da imunidade do indivíduo que está atingido”, pontua a médica.

Enquanto não se tem informações mais precisas, Glória reforça que este não é o momento de viajar para a China. “O próprio governo chinês não está estimulando que as pessoas viajem para lá, porque realmente o avião torna a propagação de qualquer vírus muito mais rápida. A pessoa embarca assintomática, mas pode já estar transmitindo o vírus”, recomenda.

Ao decretar Emergência global de saúde pública em razão do novo coronavírus, a OMS frisou que ainda não há necessidade de restrição de viagens, nem de comércio e não há motivo para pânico. O decreto é uma forma de apoiar países que não teriam a capacidade de lidar com um eventual surto e colocar todas as nações em alerta. Glória Brunetti concorda que não há motivo ainda para medidas extremas. “A China está usando de todos os meios para conter a disseminação do vírus, inclusive por meio de quarentena para mais de 40 milhões de pessoas. É uma situação complicada mesmo”, comenta.

Glória Brunetti destaca que, mesmo nesse cenário há boas notícias: “as taxas de mortalidade deste vírus estão se mostrando baixas, já temos testes diagnósticos para ele e está acontecendo uma grande transparência nas informações mundiais em relação a todos os processos”, comemora.

A médica e líder do Comitê de Saúde conclui com uma citação do escritor francês Albert Camus, publicada em 1947, no livro A Peste: “Já houve tantas guerras quanto pestes na história da humanidade; entretanto as guerras como as pestes, sempre pegam a população de surpresa…”.

Confira a seguir, como pode-se reduzir o risco de infeção pelo vírus.

HÁBITOS DE PREVENÇÃO:

* Evitar contato próximo a pessoas com infecções respiratórias agudas;

* Lavar frequentemente as mãos, especialmente após contato direto com pessoas doentes ou com o meio ambiente e antes de se alimentar;

* Usar lenço descartável para higiene nasal;

* Cobrir nariz e boca ao espirrar ou tossir;

* Higienizar as mãos após tossir ou espirrar;

* Evitar tocar nas mucosas dos olhos;

* Não compartilhar objetos de uso pessoal, como talheres, pratos, copos ou garrafas;

* Manter os ambientes bem ventilados;

* Evitar contato próximo com animais selvagens e animais doentes em fazendas ou criações.

Por Sílvia Pereira