*Por Taiga Gomes

Nos 5 anos em que vivi no Japão, aprendi que delicadeza, gentileza e respeito são fundamentais para uma convivência saudável. Quando o comportamento de cada um é focado no bem-estar do outro, quando há uma consciência de que o espaço em que convivemos deve ser compartilhado e não usado de forma predatória todos ganham, porque há harmonia e generosidade.

Para mim, esses são comportamentos femininos. Cuidar uns dos outros e da natureza que nos cerca, falar menos e escutar mais, saber que a vida é um aprendizado constante, entender que é com o diferente que crescemos. No fundo, por ser mulher, eu já sabia disso. Mas foi preciso viver do outro lado do mundo, imersa em uma cultura totalmente diferente da minha, para que ficasse clara a imensa importância desses valores.

Está na época da floração das cerejeiras no Japão.  Todo ano, no início da primavera, o povo de lá mergulha no ciclo de vida das flores que mais amam intensamente. Homens, mulheres e crianças se deliciam com todas as fases, desde o surgimento do botão nas árvores secas até a queda das pétalas, quando já começam a nascer as folhas verdes que ficarão até o outono. Minha professora de japonês, Izumi, comentou uma vez que o sentimento deles nessa época é uma mistura de contemplação, festa e também tristeza. Ao testemunhar um ciclo tão rápido, que dura em média 2 semanas, lembra-se do quanto a vida é curta. As Sakuras são uma metáfora do nascimento, vida e morte de todos nós.

Constatamos que tudo tem fim e esperamos o recomeço, que virá um ano depois.

A contemplação da beleza efêmera me lembra o quanto é importante viver no presente, e não antecipar tanto o futuro. O cenário que pintamos dentro do nosso processo de ansiedade muito raramente se concretiza, por isso, não há razão para gastarmos nossa energia imaginando o que vem pela frente. Até porque quando estamos fazendo isso deixamos de viver o agora.

A contemplação da floração das cerejeiras nos lembra da importância de ficar em silêncio, de olhar para dentro, de se conhecer de verdade, de escutar a voz da intuição, de sentir.

Tenho certeza de que não foi por acaso que, assim que cheguei de volta ao meu país, para uma cidade aonde nunca tinha vivido, encontrei o Grupo Mulheres do Brasil. Logo fui acolhida pelo carinho e o aconchego de mulheres que eu nunca tinha visto. Minha passagem pelo Japão fez sentido. Lá eu sentia de forma intuitiva que o poder da energia feminina precisa se espalhar.

Ao viver imersa em paz, contemplação e gentileza, me conectava cada vez mais com a minha essência e tomava consciência do quanto a sociedade ocidental individualista e competitiva reprimia o que de mais fundamental existe em cada uma de nós mulheres.

Cada experiência de vida é diferente, com certeza outras pessoas que viveram no oriente enxergaram à sua volta perspectivas e aprendizados bem distantes do que eu vivi. O meu caminho foi permeado pelo feminino, e, por isso, quis contar um pouco do que eu senti aqui. Mais uma vez a vida me fez mudar de direção. Minha intuição feminina me diz que todas as curvas serviram para me trazer a esse grupo de mulheres. Nós somos leveza, carinho, aconchego e acolhimento. Nós somos contemplação e gentileza. Nós vamos dar protagonismo a esses valores femininos.

*Taiga Gomes é jornalista e participante do Comitê de Educação do Grupo Mulheres do Brasil e, no dia 10 de junho, fará uma palestra sobre Leveza, na sede do Grupo (Rua Tomás Carvalhal, 681), aberta a todas as interessadas.