Se neste 8 de março – Dia Internacional da Mulher – fosse necessário escolher apenas uma mulher por nação como símbolo de sucesso, de liderança e de luta por direitos femininos, as brasileiras estariam muitíssimo bem representadas por Luiza Helena Trajano.

Francana de nascimento, formada em Direito e mãe de Ana Luiza, Frederico e Luciana Trajano, Luiza é presidente do Conselho de Administração do Magazine Luiza, rede varejista com mais de mil lojas em 18 estados e 30 mil colaboradores, que há 22 anos consecutivos mantém-se no ranking das “Melhores empresas para se trabalhar”. Apontada como responsável pelo salto de inovação e crescimento que colocou o Grupo Luiza entre as maiores redes varejistas do Brasil, ela também atua como conselheira em 12 diferentes entidades – entre elas IDV (Instituto para Desenvolvimento do Varejo), Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) e Grupo Consultivo do Fundo de População da ONU (Organização das Nações Unidas) no Brasil.

Sua reputação vai muito além das fronteiras brasileiras. No exterior, sua fama está solidamente alicerçada sobre títulos respeitáveis, como o de “Líder de negócios com melhor reputação no Brasil”, segundo a consultoria espanhola Merco; uma das três mulheres mais poderosas do Brasil, segundo a revista Forbes; Personalidade do Ano de 2020, na eleição da Câmara do Comércio Brasil-EUA; e única executiva brasileira na lista global do World Retail Congress (Conferência Mundial do Varejo).

Mas o título de que ela mais tem se orgulhado ultimamente é o de presidente do Grupo Mulheres do Brasil, rede suprapartidária formada por, aproximadamente, 38 mil brasileiras que, sob seu estímulo e exemplo, somam forças para transformar o País a partir do protagonismo feminino. Distribuídas por 52 núcleos, no Brasil e no exterior, elas têm atuado, por meio do  voluntarismo, em projetos que contribuem, de alguma forma, para alcançar os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) – apelo universal da ONU às nações para acabar com a pobreza, proteger o planeta e assegurar que todas as pessoas tenham paz e prosperidade.

Na última reunião geral do Grupo, ocorrido em São Paulo, Luiza falou ao blog sobre este e outros de seus orgulhos, sua própria origem e o que se tem a comemorar neste Dia Internacional da Mulher, mesmo havendo ainda tanto a conquistar em termos de direitos femininos.

Luiza, durante reunião do Grupo Mulheres do Brasil – Foto: Angela Rezé

Acompanhe:

Você pertence a uma linhagem de mulheres fortes e empreendedoras – afinal, sua tia e xará começou o Magazine Luiza do nada. Que diferencial você identifica em sua educação familiar que contribuiu para forjar mulheres assim em um país de machismo estruturado?

Luiza Helena Trajano: Primeiro, acho que foi o exemplo de mulheres que foram protagonistas e assumiram o papel de mantenedoras com o homem e também o de empreendedoras, que traziam soluções e não problemas. Eu acho que também tenho muito da minha mãe. Por exemplo, eu me casei há 44 anos e nunca tive um pano de prato. Quer dizer, não fui criada só para isso, ser esposa e dona de casa. Isso acho que ajudou muito. Eu adoro casamento, acho muito importante, mas, naquela época o modelo era: “você tinha que casar e ter filhos”. Eu não, minha educação foi: você tem que casar, ter filhos e também fazer outras coisas. Então essas três coisas ajudaram muito minha formação. Minha mãe e minha tia foram meus exemplos. Sempre cito minha tia na parte do empreendedorismo e minha mãe na parte do “vai sozinha, faz!”. Eu chegava reclamando e ela falava: “o problema é seu, vai lá e resolve”. E também me ensinou a nunca culpar os outros por nossos problemas. “Ah, a professora fez isso comigo”. “O que será que você tem que fazer para a professora não fazer isso?”, questionava minha mãe. Então, minha postura é sempre de não ter dó de mim. Como filha única, isso foi importante.

Foto: Angela Rezé

Cite exemplos de dificuldades com as quais teve que lidar em sua jornada profissional só pelo fato de ser mulher.

É lógico que eu tinha que ser muito mais competente do que os homens. Eu tinha que provar mais. Mas tinha uma coisa: como eu não tinha dó de mim, isso não me pesava tanto. Eu dizia a mim mesma: “eu vou dar conta”, tinha uma segurança pessoal boa. E também tive muita separação do que era masculino e feminino. Então, eu não transitei muito na ala masculina e, com isso, sempre fui muito mais respeitada. Os homens não se sentiam ameaçados porque eu valorizava também o masculino e fazia eles enxergarem o que era o feminino. Até meu filho, que teve duas filhas depois – mulheres fortes! – eu fazia respeitarem o masculino dele, mas ele ver também que mulher chorava, era mais sensível. Isso ajudou até na formação dele, mas sempre tendo muito respeito pelas mulheres. Eu acho que o vitimismo é uma coisa que atrapalha muito nessa questão do masculino/feminino. Porque se você fica com raiva, você é dominado por essa raiva. Eu nunca fui dominada, nunca tive raiva.

O que as mulheres em geral – e as brasileiras em particular – têm a comemorar neste 8 de março?

Acho que as mulheres em geral devem muito àquelas que fizeram um trabalho sério antes, indo para as ruas. A gente não votava! Temos muita coisa a comemorar, principalmente hoje, de dois anos para cá, no Brasil e fora dele. Um banco chega e diz: “eu só vou abrir IPO se tiver uma mulher no conselho”. Isso, cinco anos atrás, era uma coisa que nem se pensava. Hoje sabem que o papel da mulher é importante, mas ainda temos uma bela luta pela frente para termos salário igual – no mundo inteiro! Ainda temos cargos que não são tão importantes, até pelos nossos próprios complexos: “será que eu vou dar conta?”, “como vão ficar meus filhos?” – o tal do sentimento de “impostora de mim mesma”. Parece que o sucesso dá culpa na mulher. Outra coisa que eu não tive de jeito nenhum foi culpa por causa de filho. Eu criei três filhos trabalhando. Minha mãe falava: “nunca se esqueça: se foi ruim, foi porque você trabalhou; se foi bom, foi Deus que ajudou. E não tem uma cartilha, porque, se tivesse, você ia largar tudo e fazer o que a cartilha indica. Tem mães que trabalham fora com filhos ótimos; tem mães que trabalham fora com filhos péssimos. Não tem uma receita. Não pegue culpa”. Então eu nunca peguei culpa, mas também nunca tive expectativa de ser a melhor mãe do mundo. Eu sabia que era uma das coisas mais difíceis que eu iria fazer. Hoje em dia, quando me elogiam pelos filhos, até assusto, porque não tinha expectativa de ser uma mãe perfeita.

Como você acha que o Grupo Mulheres do Brasil vem abrindo caminhos para as mulheres?

O Grupo Mulheres do Brasil tem uma aura espiritual, energética – cada um chame do que quiser – porque tem propósitos claros. Nós queremos um Brasil melhor, queremos diversidade, queremos democracia, sem falar mal de ninguém ou ser contra ou a favor de um ou outro. É bem sério isso. Em seis anos nunca falamos mal de nenhum candidato, nenhum político, de nenhum partido. Nós falamos bem do Brasil e fazemos acontecer. Nós pegamos a causa Violência contra a Mulher… um dos objetivos era trazer para a mídia, furar a bolha; Igualdade Racial… a gente pega e parece que dali um pouco tudo acontece. A mesma coisa para que mulheres votem em conselhos e de repente vai um banco lá e fala: “isso é muito importante!”. Quero agradecer muito o Banco Goldman Sachs. O presidente falou isso “que tem que ter mulher no conselho” e abriu muitas portas para mulheres porque o financeiro aprovou. Então o Grupo Mulheres do Brasil tem uma aura, um magnetismo impressionante.

Foto: Angela Rezé

Como você abraçou essas duas lutas: pela Igualdade Racial e pelo Combate à Violência contra a Mulher?

Uma eu já contei bastante. Sobre o combate à violência, eu tive uma gerente do Magazine Luiza que morreu a golpes de canivetadas do marido. Deixou um filho de 9 anos. E eu, apesar de já trabalhar no Comitê de Combate à Violência Contra a Mulher, achava que isso estava muito longe de mim. Fiquei muito mal, porque estava mais perto do que eu esperava e não vi. No dia seguinte, já redirecionei, fui para o YouTube, montei um canal, e hoje a gente já atendeu mais de 300 mulheres dentro do Magazine. Isso me ajudou muito a me engajar nessa causa. Achei que aquela morte não podia ser em vão. Porque não importa – eu gosto muito de dizer para os homens isso – não importa o que a mulher fez, se ela traiu, fez isso ou aquilo. Tira os filhos, vai na Justiça, não dá mesada, não dá nada, mas o direito à vida está na Constituição. É ruim para o resto da vida dele. É ruim para os filhos, para a família de quem mata, para a família de quem morre. É ruim para todo mundo. Então vamos arrumar outra alternativa quando ele se sentir injustiçado, quando não quiser se separar. Não mate! A morte acaba com todo mundo em uma família.

Você tem uma história com igualdade racial também…

Acho que você não pode discriminar uma pessoa pela cor da pele. A gente acaba fazendo isso. Quando percebi, nas nossas festas, que quase não tinha negros, a gente começou todo um movimento, inclusive com o Mulheres do Brasil. Hoje, para nós, é super legal. A gente convive, aprende e vê que tudo é igual. É um absurdo não ter uma mulher negra presidente [de conselho] no Brasil. Acho que os negros têm muito mais coisas ainda para vencer. A mulher negra, o homem negro. A gente vê muito poucas pessoas negras nos lugares. É uma luta árdua, mas é uma luta minha e deve ser a de todo mundo, principalmente do Comitê de Igualdade [do Grupo Mulheres do Brasil], que nunca vi trabalhar tanto. São umas heroínas, dia e noite.

Ser feminista é necessário?

Vamos entender, primeiro, o que é ser feminista. Estou em todo o lugar explicando o que é feminismo, porque tem pessoas que ainda não entendem. É querer igualdade de direitos para homens e mulheres. Eu acho que nenhum homem é contra isso, porque tem filhas e netas. É ter direitos e deveres iguais aos do homem é uma coisa normal. Então, primeiro, feminismo é isso, e foi muito mal explicado até hoje.

Inclusive há mulheres que morrem de medo de serem chamadas de feministas porque acham ‘palavrão’…

Porque elas acham que ser feminista é ir para a praça queimar sutiãs, o que, na época em que aconteceu foi importante. Agora, eu digo pra você: minha neta, que tem 11 anos, um dia vai falar assim: “não entendi porque minha avó tinha um movimento de mulheres; será que precisava disso?”. Porque vai evoluindo. Cada dia está mais próxima essa igualdade. Essa luta nossa não é contra o homem. Pelo contrário. Eu defendo muito o papel do masculino, respeito muito! Falo: “olha, isso é papel seu”. Estou intuindo – no começo ninguém dava bola para a minha intuição e hoje todo mundo dá. Eu acredito muito – quero deixar bem claro – na junção do masculino e feminino. Mas digo para os homens que a gente ainda tem muita coisa para conquistar e eles têm que estar conosco. O interessante é que, na violência contra a mulher, do Magazine Luiza, temos uma linha de disque-denúncia só para mulheres que sofrem violência e as pessoas que mais me ajudam são os homens. Eles veem chegar mulher machucada, ligam no canal e falam: “olha, tem uma mulher com um roxo aqui, liga pra ela, pede para as psicólogas abordarem”. Então os homens têm nos ajudado muito a diminuir isso.

Foto: Angela Rezé

Se você tivesse liberdade para fazer mudanças estruturais no Brasil por qual área começaria?

Pela estrutura burocrática. Acho inchada demais. Numa época de startups você precisa simplificar. Por isso eu sou a favor da privatização, menos da saúde, da educação e da segurança. Acho que não dá para o Governo ver tudo. Eu começaria por esse processo de simplificação da massa do Governo. Como é que a gente pode fazer isso sem ter desonestidade? É uma equação. Mas eu começaria por aí.

Em que área acha mais essencial investir?

Lógico que eu acho a educação, mas também sem a economia funcionar, você não tem educação, porque um país que não tem emprego vai acabar por não dar educação. Eu invisto na educação, mas meu grande propósito de vida é gerar empregos. Chegamos no Paraná gerando 2 mil empregos, e o que eu recebo de cartas de gratidão de pessoas que estavam desempregadas há muito tempo! Acho que é isso: é difícil você separar a área econômica do desempenho da educação, porque se a economia não caminha… o emprego em um país no qual 60% das pessoas ganham menos de R$ 1.500 e 27% ganham menos de R$ 300, você não pode fazer muito. Então essas áreas têm que caminhar juntas.

Você faz parte dos 10% de mulheres (IBGE) que ocupam assentos em conselhos de empresas brasileiras. O que as mulheres e o cenário empresarial perdem com este percentual tão baixo e de que forma acha possível elevar esta participação?

Eu fazia, não faço mais, porque, graças a Deus, isso [o percentual] está aumentando. O pessoal está sabendo que precisa ter mulher no Conselho até para abrir IPO [risos]. O Grupo Mulheres do Brasil tem trabalhado muito e, como vários movimentos de mulheres, os homens têm ajudado. Acho que tudo é mérito de grupos unidos.

Mas ainda precisamos das cotas?

Cota é um processo transitório para corrigir uma desigualdade histórica. Tem gente que arrepia de falar em de cota. Então, espera 100 anos! Se realmente não aumentarmos esse número, são necessárias as cotas. Se aumentarmos, não é necessário. Nós estamos com projeto de cotas no Senado, mas, por enquanto… eu acredito que ano que vem já será diferente, porque tem muita gente me procurando para ter mulheres no conselho. Hoje eu abri um evento bem masculino e eles falaram o seguinte: não terá um evento desse mais que não seja aberto por uma mulher. Eu fui a primeira a estrear.

Qual você considera que será seu grande legado?

Acho que o meu legado será: aonde eu estou eu dou o melhor de mim e pego o melhor das pessoas. Serei lembrada por isso, porque sempre estou inteira no que faço. Aqui com vocês eu estou inteira. Agora mesmo vou tirar fotos com as pessoas e estarei inteira. Isso faz as pessoas entrarem em um outro estágio de vida. Acabo empoderando várias pessoas. Sozinha não faço nada. E não estou fazendo chavão, não. Não pego para mim nada que é dos outros e estou sempre com gente boa ajudando. Também aceito minhas incompetências facilmente.

Para você, qual a importância de ser a terceira mulher em 50 anos a receber o prêmio Personalidade do Ano da Câmara Brasil-EUA?

Quando recebi o convite – eu estava com minha filha em Lisboa – fiquei pensando que era para o meu filho, porque eu conhecia o prêmio como “Homem do Ano”. Quando entendi a notícia mesmo, passou um filme na minha cabeça: puxa, uma menina que começou no interior… A primeira sensação… me vieram à cabeça muitas pessoas que me ajudaram a chegar até aqui. Eu falo que o Grupo Mulheres do Brasil foi um fator muito importante. Eu sozinha não teria um grupo. Muita gente acreditou nesta causa. Eu serei uma das primeiras mulheres… Eles escolhem sempre uma pessoa do Brasil e outra dos Estados Unidos, e agora a americana também será uma mulher. Acho que é uma abertura de portas. Que bom que eu tinha condições de representar o Brasil! Eu acho que tenho, não vou ser modesta, mas com muita gratidão a tudo e todos que me fizeram chegar até aqui. Quem sabe o próximo presidente da Câmara de Comércio Brasil-EUA não será uma mulher? Esse 14 de maio (dia da premiação) vai ser histórico. Por acaso, coincidiu com a semana de inauguração do Núcleo Nova Iorque do Grupo Mulheres do Brasil.

Foto: Angela Rezé

Por Sílvia Pereira