“Desafios da Ascensão Feminina ao Conselho” foi o tema de mais um encontro da série Diálogos, desta vez promovida pelo Comitê 80 em 8, do Grupo Mulheres do Brasil. Liderado por Maria Fernanda Teixeira, o comitê foi criado há cinco anos, quando pesquisas estimavam que as mulheres só ocupariam 50% dos cargos em conselhos de administração no Brasil em 80 anos. O objetivo de sua formação, então, foi o de criar iniciativas visando reduzir este tempo para 8 anos. “Desde então, as pesquisas só têm piorado – atualmente, a previsão é de 120 anos”, comentou Maria Fernanda, ao apresentar os convidados do evento, realizado no último dia 11 de junho, na sede do Grupo Mulheres do Brasil, em São Paulo.

Leila Loria, com experiência de 36 anos como executiva de grandes empresas e atualmente conselheira da WCD Brasil (Women Corporate Directors), abriu o encontro apresentando dados sobre a participação de mulheres em conselhos de companhias abertas em todo o mundo. Segundo último levantamento da Spencer Stuart, rem 2018, 9,4% (156) mulheres integravam conselhos. Os países mais avançados nesta inclusão são Noruega, com 45,6% de mulheres; França (42,5%) e Suécia (39,1%), enquanto o Brasil está entre os mais atrasados, com mais da metade dos conselhos sem nenhuma mulher.

Para Leila, um dos motivos do quadro brasileiro é o fato de a grande maioria dos conselhos não usar empresa de headhunter para selecionar seus conselheiros. “É um problema, porque na vida executiva, quando você fica sabendo das vagas, descobre que já foi ocupada por alguém que é amigo de alguém. É uma coisa de network e confiança. Acaba não tendo um critério tão profissional e objetivo”, opina.

Ela enumerou várias vantagens de se ter mulheres em conselhos. Entre elas a vontade de aprender sempre e se preparar cada vez melhor das mulheres – “há pesquisas provando isso”; a solidariedade; e uma diversidade, não só de gênero, mas de enfoque e temas, o que se mostra cada vez mais importante. “Aquele conselho que se preocupa apenas com o resultado do próximo trimestre a gente vai ver cada vez menos, porque eles têm que se preocupar com o médio e longo prazo, e as mulheres tendem a ter essa visão”, diz Leila.

Obstáculos à diversidade

Para Mauro Cunha, presidente da Amec (Associação dos Investidores no Mercado de Capitais) e conselheiro na Eletrobrás, entre as mudanças positivas que diz estar observando no ambiente mundial é o fato de os conselhos estarem suportando melhor a diversidade. Citou como exemplo a Totvs, que têm conselheiros empregados em empresas concorrentes. “Se houver conflito de interesses, vai ser administrado, mas se uma empresa como esta não tiver uma pluralidade de visões dentro de casa, vai ser relegada à irrelevância”, opinou.

A parte mais importante de sua exposição versou sobre o motivo de todas as grandes organizações do mundo serem lideradas por conselhos. Para isso, recorreu ao livro “The Wisdom of Crowds” (A Sabedoria da Multidão), de James Surowiecki, segundo o qual todos nós temos viéses individuais que nos induzirão, eventualmente, a erros. “Se temos um grupo de pessoas iguais, esses viéses são magnificados. Então, se a decisão correta está no meio e o viés do conselho é à esquerda ou direita, será tomada a decisão errada. Em um conselho com diversidade, os viéses se anulam e é tomada a melhor decisão”, resumiu.

A explicação denota a importância da diversidade nos conselhos. “Muito da ligação que eu tenho com a agenda de vocês aqui vem da minha percepção de que isso hoje é um problemaço! Os nossos conselhos [falando em Brasil] não têm diversidade sob os mais diversos ângulos”, diagnosticou Cunha.

Para ele, avançar na inclusão de mulheres nos conselhos, requer fazer com que os investidores institucionais cumpram seu papel, de atuar como donos e buscar uma composição de conselho favorável para a companhia, ou seja, com maior diversidade.

Por Silvia Pereira