Com mediação de Luiza Helena Trajano, o painel “Deficiência com Eficiência”, promovido pelo Comitê Inclusão da Pessoa com Deficiência, do Grupo Mulheres do Brasil, no dia 8 de maio, contou com os testemunhos valiosos de Lina Maria Kotschedoff e Leandro Assis Pólito. A bailarina Geyza Pereira, da Cia Ballet de Cegos, da Associação Fernanda Bianchini, também participou como convidada.

Foto: Angela Rezé

Com baixa visão (apenas 4%), Lina é uma brasileira, filha de baiana, criada na Alemanha. Formada em Marketing e Gestão, com MBA em Estratégias e Inovação, ela trabalha atualmente com startups e Community Manager para o sexto maior fornecedor de energia na Alemanha.

Com uma deficiência conhecida como Stargardt – que provoca a morte da retina –, Leandro é graduado em Administração de Empresas, pós-graduado e mestre em Gestão de Negócios, e trabalha no Google, como Sourcing Manager, responsável pelas contratações de serviços na América Latina.

A bailarina Geyza encantou a todos com sua apresentação – Foto: Angela Rezé

Ambos foram unânimes em responder que, independentemente de deficiência, o que faz uma pessoa vencer na vida é talento e força de vontade, principalmente para levantar depois de um tombo.

Outro ponto em que palestrantes e mediadora concordaram foi que minorias – não só pessoas com deficiência, mas também mulheres, negros, entre outras – não devem aceitar a posição de vítimas e precisam assumir-se como protagonistas de suas vidas.

Luiza citou como exemplo sua história, pois ela mesma foi vítima de discriminação por ser mulher e do interior. Sua sorte foi, assim como Lina e Leandro, ter tido uma mãe com muita inteligência emocional, que sempre a questionava quando chegava em casa com queixas sobre as discriminações que sofria. “Então nunca tive muito dó de mim. Tudo bem que também tenho uma autoestima espetacular”, brincou.

Lina também contou uma passagem de sua infância para exemplificar como foi importante o estímulo de sua mãe. Quando chegou em casa chorosa por ter ouvido de uma professora que não adiantaria ela estudar, pois a economia estava morrendo e logo não haveria emprego nem mesmo para pessoas sem nenhuma deficiência, sua mãe lhe disse: “você nasceu com dois passaportes, fala três idiomas fluentemente e tem uma caderneta de poupança. A Alemanha não é o final do mundo. Você tem todo o mundo pra conquistar. O que você quiser, você vai ser”.

Foto: Angela Rezé

Cotas

Luiza defendeu a lei de cotas, que obriga empresas a empregarem um percentual de portadores de deficiência. “Hoje minha empresa não precisa mais preocupar-se em cumprir a cota porque não distingue mais deficientes de qualquer outro trabalhador, mas sou grata à lei por ter me aberto os olhos”, declarou. Hoje, Luiza é uma defensora das cotas, pois considera que estimula as empresas a conhecerem o potencial das pessoas com deficiência.

Empreendedorismo

Questionada por Luiza sobre o que considera empreendedorismo, Lina resumiu que significa “botar a mão na massa”, sair da teoria e ir para a prática. Também considera um traço do empreendedor aceitar os desafios e falar com as pessoas – o que defende com muita veemência. “Conversa com o povo. Para de pensar que você entende o consumidor, que entende o problema que você quer solucionar. Por incrível que pareça, eu aprendi isso por causa da minha deficiência”, disse. Neste ponto, ela citou como exemplo o conselho de sua mãe ante sua irritação com pessoas que lhe pegavam pelo braço para orientar o caminho: “se não gosta que façam isso, explique para as pessoas como é que você enxerga”, disse a mãe.

“Sou muito grata à minha deficiência, para ser sincera. Por causa disso eu aprendi a ser empreendedora”, declarou Lina.

Eficiência

Os painelistas também relataram suas experiências sobre estar em um ambiente profissional onde não se veem muitas pessoas com deficiência.

“A gente tem que fazer o dobro do que uma pessoa que não tem deficiência, que não é mulher ou que não é negra faz, porque você começa o jogo com as pessoas não confiando em sua capacidade. Então você tem que fazer duas, três vezes mais para conquistar essa confiança”, disse Leandro.

Lina confessou que, em seus primeiros dez anos de carreira, enquanto os colegas pegavam três projetos, ela pegava cinco. Isso lhe rendeu uma Síndrome de Burnout (esgotamento nervoso por acúmulo profissional). Hoje em dia, quando percebe uma pessoa com deficiência incorrer nesse mesmo comportamento, tenta aconselhar: “Você não precisa [se exigir em dobro] porque a pessoa lhe empregou sabendo as qualidades e talentos que você tem”.

Um papel importante que Lina assume voluntariamente é o de dar palestras falando de sua experiência e de seu dia-a-dia. “Eu parto do princípio de que toda pessoa tem uma deficiência. Só que algumas são aceitas, outras não”, conclui.

*Por Sílvia Pereira