Não bastam só leis e campanhas educacionais. Combater o preconceito e a discriminação demanda, antes de tudo, uma admissão interior de cada um de nós: a de que todos nascemos com a capacidade de classificar, por isso, de criar estereótipos. Mas estereotipar é só isso, classificar por semelhanças. O preconceito se refere aos juízos de valor que colocamos nestes estereótipos. Tomar consciência disso nos permite escolher se agimos ou não seguindo os nossos juízos de valor, e ainda nos faz entender o mecanismo por trás do preconceito do outro. Isso faz toda a diferença em nosso posicionamento individual e também na elaboração de políticas públicas de estímulo à inclusão e à diversidade.

Esta foi a principal conclusão do painel apresentado pela treinadora comportamental Kaká Rodrigues, uma das líderes do Comitê de Igualdade Racial do Grupo Mulheres do Brasil, durante o evento Plugar Igualdade Racial, promovido em 24 de outubro, na Torre Santander, em São Paulo.

Kaká Rodrigues – Foto: Angela Rezé

Kaká falou sobre “viés inconsciente”, que definiu como o termo científico para preconceito inconsciente, e também sobre discriminação, “que é quando atuo baseada em um viés pessoal, um preconceito meu”, exemplificou.

Ela explicou que viés inconsciente é um mecanismo de nosso cérebro criado durante o processo evolutivo humano, ao longo do qual desenvolvemos uma estrutura cerebral chamada de cérebro trino – comporta nosso cérebro mais primitivo, chamado reptiliano; o límbico, que controla as emoções; e o neocórtex, mais evoluído e recente, que controla nossos processos cognitivos (apreensão de conhecimento). Os dois primeiros têm a função de nos proteger, fazendo com que sobrevivamos a ameaças. O terceiro classifica e acessa as informações conforme demanda nosso raciocínio, mas não tem uma capacidade de processamento tão veloz quanto a de nossos cérebros mais primitivos.

A treinadora comportamental lembrou que, na época das cavernas, foram os cérebros primitivos que garantiram a sobrevivência da raça humana. “Nos tempos das cavernas, numa tribo, era todo mundo igual. Se chegasse alguém diferente, poderia ser uma ameaça. Então eu criei na minha cabeça, em milhares de anos de evolução, que o diferente pode ser uma ameaça”, explicou Kaká.

Foi para nos proteger de ameaças que nosso cérebro criou os vieses inconscientes, que são padrões de ação e reação automáticos (atalhos) baseados em experiências pessoais, culturais, em educação, em nossa apreensão do meio ambiente e em aprendizados. Geralmente tendenciosos, esses “atalhos” acabam influenciando na formação do sistema de crenças que define nossos comportamentos. “É um piloto automático que nosso cérebro cria para que tenhamos menos processamento cerebral – 95% de todas as nossas decisões estão baseadas nesse processo automático”, informa a líder.

Emoção e muito aprendizado – Foto: Angela Rezé

Menos processamento cerebral, explica ela, torna o cérebro mais eficiente energeticamente – com peso equivalente a aproximadamente 5% do total de nosso corpo, o cérebro gasta cerca de 30% de toda a nossa energia demandada – porque os atalhos economizam energia. “Quanto mais o cérebro for eficiente energeticamente, melhor para ele. Já para a sociedade, nem tanto, porque eficiência energética significa pensamento automático. Quando eu estou acessando o meu cérebro 2 [o racional], pensando em como é que eu posso duvidar daquilo que o meu cérebro 1 [o primitivo] está me falando, estou gastando mais energia”, esclarece.

A importância de reconhecermos esses preconceitos inconscientes arraigados em nosso cérebro primitivo está no fato de que a consciência desse automatismo nos fornece a escolha de “duvidar” dele. “Posso escolher não agir a partir desse meu primeiro pensamento automático”, garante Kaká.

Vieses principais

A líder explicou quais são os cinco principais tipos de vieses inconscientes que praticamos:

1) Viés de afinidade: quando tendemos a avaliar melhor quem se parece conosco em algum aspecto, seja em gênero idade, histórias de vida, etc. Um exemplo é a tendência de selecionarmos, para um cargo de emprego, pessoas mais parecidas conosco. Já um homem branco e heterossexual tentando selecionar uma mulher negra para um cargo teria que fazer um enorme esforço empático para se conectar com aquela pessoa completamente fora do universo conhecido por ele. “É muito desafiador pra uma pessoa que não vive este mundo, que não faz ideia do que é ser uma mulher negra, ter empatia por ela. Daí a importância do nosso trabalho de proferir palestras nas empresas. Temos que ter consciência do esforço de empatia que as pessoas têm que fazer pra se conectarem com outras diferentes delas”, pontuou Kaká.

2) Viés de percepção: quando se busca reforçar estereótipos a partir de uma percepção não baseada em fatos. Exemplo: o ditado popular “mulher no volante, perigo constante” reforça o estereótipo da mulher má motorista, quando os fatos comprovam que ela é mais cuidadosa e envolve-se em menos acidentes que os homens – por isso as seguradoras cobram mais barato para segurar os veículos dirigidos por elas.

3) Confirmatório: quando se busca o tempo todo confirmar algo no qual já se acredita. O ambiente político brasileiro está cheio de exemplos deste viés: quem tem uma visão de direita, vai ler sempre jornais, livros e portais de direita e conversar com pessoas de direita; quem é de esquerda, idem.

4) Efeito de halo ou auréola: padrão de santificar pessoas a partir de uma única característica, desumanizando-as. Fazemos isso o tempo todo com líderes religiosos e políticos, por exemplo. “Então eles ‘pisam na casca da banana’ [cometem um deslize] e a gente lincha aquele ser humano, esquecendo que fomos nós que o colocamos naquele altar”, observa.

5) Efeito do grupo: quando seguimos o padrão de comportamento e um grupo. Exemplos: “efeito manada” e tribos de adolescentes agindo de forma semelhante. “Somos seres gregários, necessitamos do grupo para sobreviver”, lembra a treinadora comportamental.

Foto: Angela Rezé

Para a líder, a única forma de lidar com os vieses é reconhecendo-os em nós. O segundo passo é buscar a diversidade de pensamento em nossas relações. “Faça conexões diferentes. Divida isso que a gente está conversando aqui com outras pessoas, sua família, seu ambiente de trabalho”, aconselhou. “Mais do que construir ações afirmativas, com metas disso e daquilo, precisamos construir consciência. A gente peca muitas vezes porque não sabe o que está fazendo. Então, vamos refletir e conversar sobre nossos vieses para desconstruir algumas coisas que a gente construiu e não está funcionando muito bem”, concluiu.

*Por Sílvia Pereira