Ministra do Supremo Tribunal Federal evocou poetas, músicos e escritores brasileiros para falar sobre desafios contemporâneos do País, em torno do qual as mulheres podem – e devem – atuar como protagonistas

Além de produtiva, pródiga em animação e boas ideias, a reunião de planejamento 2020 do Grupo Mulheres do Brasil contou com algumas presenças de peso, realizada em São Paulo, em dezembro. A mais ilustre foi a da ministra do Supremo Tribunal Federal Cármen Lúcia Antunes Rocha, que presidiu a corte e o Conselho Nacional de Justiça entre 2016 a 2018 e ainda o Tribunal Superior Eleitoral, em mandato anterior. Elegante em um terninho com gravata, Cármen Lúcia soube temperar a seriedade dos temas que abordou – desafios de nossa condição de mulher, da cidadania e das humanidades – com a sensibilidade típica feminina, alinhavando a fala com poemas, trechos de obras literárias e versos de canções de grandes nomes da literatura e música brasileiras.

Logo no início, Cármen Lúcia declarou que o Grupo Mulheres do Brasil compõe “um exemplo de cidadania responsável, atuante e principalmente com compromisso com o presente e o futuro”. Para abordar o primeiro tópico, pediu licença para situar o momento em que todos nós, cidadãos, estamos vivendo, em qualquer parte do mundo, mas especialmente no Brasil. Para tanto, evocou o poema “Nosso Tempo”, de Carlos Drummond de Andrade:

“Esse é tempo de partido,

tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,

viajamos e nos colorimos.

A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.

Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos….”

Lembrou que o poema, datado da época da Segunda Guerra Mundial, poderia estar se referindo aos tempos de hoje, em que continuamos a falar sobre crise, rupturas, divisões. “Tantos anos depois este também é um tempo de partido e de homens partidos. O Brasil está muito rachado. E está mesmo. Mas será que é só do nosso momento? Qual é o ingrediente novo pra que a gente pense que a dor que a gente vive, que a dor de viver que é própria da vida, é maior do que a de quem vem antes ou vai ser maior do que a de quem vem depois?”, questionou.

Foto: Divulgação

Ao introduzir o tema dos desafios de nossa condição de mulher, Cármen Lúcia evocou as palavras de um seu conterrâneo de Montes Claros (MG), o antropólogo e escritor Darcy Ribeiro. “Ele dizia que acreditava no Brasil, nunca deixou de acreditar, porque ele acreditava na mulher do Brasil. A resposta que a gente vê é um encontro como este”, elogiou.

Para a ministra, é como se a mulher não tivesse o direito de desanimar porque ela tem um compromisso com a vida. “E vida não rima com desânimo em nenhuma circunstância. Pode, uma outra hora, ter algum cansaço, num outro momento ter uma queda, mas o exemplo é o levantar. Se cai sempre sabendo que se pode erguer de novo, e de novo começar e se reinventar”. Entretanto, emendou ela, estamos vivendo um momento em que a violência contra a mulher, que antes era mais de preconceito, agora se transformou em atos de violência. Prova disso é que temos, hoje, no Brasil, um ato de violência contra a mulher a cada 3 minutos.

O que nós temos de fazer para superar este momento?, questionou, para novamente responder: na condição de mulher, temos o enorme compromisso de agir como protagonistas dessa história e da história do Brasil. “A violência contra a mulher vem exatamente porque houve uma mudança de patamar na sua atuação extramuros. Antes, quando ela estava acomodada dentro de casa, não havia uma necessidade de haver uma reação ou amostragem de reação contra a mulher. Quanto mais ela sai de casa, quanto mais ganha espaços, quanto mais luta para que sua vida seja exatamente o que ela prefere e tem educação para exercer, mais sofre violência”, diagnosticou.

Cármen Lúcia lembrou que as mulheres têm uma participação política institucional menor do que a ‘grandissíssima’ maioria dos países do mundo inteiro. Isso tanto nos poderes Legislativo quanto no Executivo e muito mais no Judiciário. Já quando é dada oportunidade igual a mulheres – como no caso dos concursos públicos – ela acaba tendo um ingresso muito maior do que os homens. Por isso, acredita a ministra, as mulheres que tentam modificar este estado de coisas de preconceito e discriminação sofrem reações.

“Uma sociedade que mata mulheres e crianças é uma sociedade muito doente. Quem pode curar é aquela e aquele que denuncia. Porque a questão da violência e do preconceito contra a mulher não é um problema só dela. É um problema da sociedade”, reafirmou Cármen Lúcia. Ela disse ainda considerar um compromisso e uma responsabilidade de todas se unirem no propósito de transformar a sociedade nos pontos que ela deixa muito a desejar, como no caso da violência contra a mulher. “Acho que um grupo como este tem exatamente esta perspectiva de transformação da situação da mulher e de vencer este desafio”, declarou, referindo-se ao Grupo Mulheres do Brasil.

Nova cidadania

O segundo desafio sobre o qual a ministra discorreu teve a ver com a questão da cidadania do estado contemporâneo, no qual as relações entre as pessoas têm sido alteradas pelos conhecimentos de informática. “Quando você muda a relação da pessoa com as coisas, você muda a relação entre as pessoas. Hoje nós temos a capacidade de, por exemplo, apresentar um projeto de lei cumprindo o que a constituição determina de forma virtual. O cidadão brasileiro mudou, a cidadã brasileira mudou. Eles querem se apresentar e exercer o poder de forma direta. Nós ainda não demos conta do que vai ser daqui pra frente a nossa relação com as coisas e com as pessoas”, ponderou.

Diante disso, Cármen Lúcia refletiu que, talvez, nosso maior desafio nestes tempos seja não perder o olhar humano. Para ela, a tecnologia deve estar a serviço do homem e não o homem ser servido como objeto para uma tecnologia de inteligência artificial. Ao mesmo tempo que considera esta nova forma de exercer a cidadania um desafio novo, a ministra vê nisso uma possibilidade de união numa dimensão e numa profundidade maiores, desde que consigamos nos libertar de preconceitos e fórmulas prontas. “Se nós não tivermos condição de cooperar, de nos unir para uma educação que leve todas as crianças brasileiras a formas novas de adquirir educação, o brasileiro estará atrasado sempre – no mercado de trabalho, no conhecimento, na capacidade de aprender”, raciocinou.

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Fé na vida

No último tópico de sua fala, que abordou humanidades, a ministra começou dizendo que, no Brasil, temos pessoas que estão vivendo no século 21 e outras que estão vivendo no início do século 20. “Hoje, alguém tomou seu avião legitimamente e foi trabalhar. Nesse mesmo país uma mulher anda dois dias para chegar até um lugar onde ela toma uma jardineira, levando o seu filho, para chegar, depois de um dia, a um posto de saúde. Essas duas pessoas são igualmente brasileiras. Iguais na dignidade humana”, declarou.

Neste ponto, Cármen Lúcia tocou no ponto em torno do qual considera que todos os brasileiros devem se unir: o da solidariedade. “Para que a gente reconstrua esse espaço de desigualdade que deslegitima as relações pessoais e as relações sociais, tanto quanto as relações políticas”, disse. Para ela, temos a responsabilidade solidária de vencer a intolerância, pra que sejamos capazes de ajudar a reinventar o País naquilo que ele tem de fratura, porque no que ele tem de bom nada o supera”.

E voltando ao tema da força das mulheres, Cármen Lúcia citou outro mineiro, Milton Nascimento, ao dizer que “nós, mulheres, temos esta estranha mania de ter fé na vida”, numa referência à letra da canção “Maria, Maria”. Terminou citando, novamente, Drummond, que dizia: “o presente é tão grande/ não nos afastemos/ não nos afastemos/ vamos de mãos dadas”. “Acho que nós, mulheres do Brasil, deste grupo e de todo o Brasil, junto com todos os homens de boa vontade, estamos de mãos dadas. E o compromisso que nós temos é este, de ter coragem, fé na vida e esperança, que já brota na nossa alma, mas que precisa agora ter expressão na nossa atitude”, concluiu, sob uma chuva de aplausos.

Por Sílvia Pereira