O Grupo Mulheres do Brasil publicou recentemente, em seus perfis nas redes sociais – Instagram e Facebook –, uma carta aberta de apoio à jornalista Patrícia Campos Mello, alvo de uma insinuação de teor sexual em comentário público feito pelo presidente brasileiro Jair Bolsonaro.

Rede feminina suprapartidária, que defende a liderança da mulher na construção de um país melhor, o Grupo é cuidadoso em seus posicionamentos públicos. Para decidir sobre qualquer pedido para manifestar-se, os diversos comitês do Grupo acionam o Grupo de Trabalho (GT) de Gerenciamento de Crise para avaliar a amplitude do fato e da situação, e se afronta, em algum grau, as Premissas e o conjunto de princípios Inegociáveis do Grupo (leia ao final quais são as Premissas e os Inegociáveis do Grupo Mulheres do Brasil).

Luciana Burr, uma das líderes do Grupo de Trabalho Gerenciamento de Crise, explica que o GT pode ser acionado a pedido de membros, de um grupo de mulheres ou por uma diretoria. “Ele atua em situações mais urgentes, que demandem uma ação pontual”, explica Luciana.

O GT de Crise que decidiu sobre este posicionamento foi formado por representantes de órgãos e associações de classe do jornalismo e de outros comitês do Grupo ligados ao tema, que avaliou a mensagem em questão e concluiu que havia conteúdos sexistas e misóginos, e que trazem, como consequência, a validação do machismo cultural e estrutural no País.

“Nós nos manifestamos em situações em que as premissas que defendemos estão sendo ameaçadas. Neste caso, temos uma autoridade da República fazendo insinuações de cunho sexual a uma pessoa, por ela ser mulher e por ter feito bem seu trabalho. Ele está desqualificando o profissionalismo dela por ser mulher”, declara Luciana.

A CEO do Grupo Mulheres do Brasil, Marisa César, ressalta que um presidente da República é uma referência de comportamento e, neste contexto, sua fala atentou contra os direitos das mulheres. “Atitudes como esta intensificam o machismo estrutural”, concorda.

Ela lembra ainda que diversas mulheres sofrem agressões e violências como essas diariamente, mas a diferença e fator decisivo para o posicionamento do Grupo foi o fato de ter partido da autoridade máxima do País. “Somos contra qualquer tipo de violência contra as mulheres e lutamos combativamente contra isso. Neste caso específico, o potencial influenciador foi muito grande, por isso nossa decisão de um posicionamento público de apoio à jornalista”, diz Marisa Cesar.

Lígia Pinto, diretora de Advocacy do Grupo Mulheres do Brasil, diz que a carta aberta é de apoio a um trabalho sério e a favor de duas premissas do Grupo: combater a desigualdade de gêneros e defender a liberdade de imprensa. “Nós achamos que esse tipo de fala não seria feito se o jornalista fosse homem. Então gostaríamos que esse tipo de mensagem fosse repensado pelo mensageiro. Até porque nossa crítica não é ao mensageiro, mas à mensagem”, afirma.

“Nossa fala foi para uma jornalista premiada pela coragem em apresentar denúncias tão contundentes. A liberdade de imprensa é um dos pressupostos da democracia”, conclui Lígia.

ÍNTEGRA DA CARTA DE APOIO A PATRÍCIA CAMPOS MELLO

“Querida Patrícia,

Você tem sido alvo de uma campanha misógina, sexista e difamatória que tenta desqualificar o seu trabalho de forma covarde.

Como um coletivo suprapartidário que representa mais de 37 mil mulheres, gostaríamos de reafirmar nossas ações pela igualdade entre gêneros e raças, o respeito às diferenças e a liberdade de imprensa. Sigamos juntas pela voz da mulher brasileira, pois a sociedade ganha como um todo. Grupo Mulheres do Brasil

Sobre as Premissas e os Inegociáveis

O Grupo Mulheres do Brasil estabeleceu alguns princípios que são chamados de Inegociáveis, para que sua atuação ocorra de forma coerente e sempre transparente. São eles:

  • Somos um Grupo suprapartidário, e o nosso partido é o Brasil
  • Não usamos o nome e nem registros do Grupo para benefícios pessoais ou profissionais
  • Não somos contra os homens. Somos a favor das mulheres
  • Não reinventamos a roda, nos engajamos em projetos e instituições já existentes

As Premissas defendidas pelo movimento norteiam sua atuação em prol de um país mais justo e com igualdade de oportunidades para todas e todos:

  • Somos feministas, pois defendemos a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres;
  • Lutamos pelo fim da violência contra a mulher;
  • Somos a favor dos direitos humanos e consideramos que esta não é uma pauta nem da direita e nem da esquerda, mas do Brasil;
  • Somos a favor da liberdade de imprensa;
  • Somos a favor da igualdade racial;
  • Somos contra qualquer tipo de discriminação, seja por cor, raça, origem, classe social, orientação sexual ou credo;
  • Somos a favor de um sistema público e eficiente de saúde, que atenda às necessidades da população;
  • Somos a favor de uma educação pública de qualidade;
  • Somos a favor da democracia.

Como participar

Todas as mulheres são bem-vindas, basta cadastrar-se pelo site www.grupomulheresdobrasil.com.br . Em seguida, as novas interessadas receberão as instruções para participar das reuniões do Grupo.

Por Sílvia Pereira