A 4ª edição do Aceleradora de Carreiras, que aconteceu em São Paulo nos últimos dias 16, 17 e 18 de agosto, mostrou a consolidação e ampliação do programa em torno do objetivo de preparar mulheres negras para ocupar cargos de liderança no mercado de trabalho, segundo a líder do Comitê de Igualdade Racial do Grupo Mulheres do Brasil, Elizabete Scheibmayr.

De acordo com a pesquisa Perfil Social, Racial e de Gênero, publicada em 2018 pelo Instituto Ethos, apenas 0,4% dos cargos de CEO no Brasil são ocupados por mulheres negras, o que é alarmante se considerarmos que, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), os negros são mais de 54% da população brasileira. Eles representam 57% dos aprendizes nas empresas, mas quanto maior o patamar de cargos, mais vai caindo sua participação.

Realizado durante três dias, em formato de imersão, o Programa Aceleradora de Carreiras aborda, junto às participantes, temas como autoconhecimento, sonho, carreira, valores, marca pessoal, ancestralidade, finanças, dress code e networking. Também realiza painel com executivos, que nesta edição contou com um time de feras – Moisés Marques, Rachel Maia, Patrícia Moraes e Ana Cotart – e mediação de Helen Andrade. Ao final, ainda são realizadas sessões de mentoria individual, com o apoio da plataforma da Comunidade Empodera, e visitas a empresas.

Líderes e painelistas, durante o evento – Foto: Divulgação

Segundo Elisabete, o programa tem crescido a cada ano, tanto em número de participantes quanto de voluntárias e já mostra uma mudança comportamental. “Essas meninas passam a gerenciar melhor suas carreiras, identificando os pontos fortes e fracos, fazendo planos de curto, médio e longo prazo. Pensam em networking estratégico e não têm medo de errar, entendendo que isso faz parte do crescimento”, declara.

Luiza Helena Trajano, presidente do Grupo Mulheres do Brasil, ressalta que o Aceleradora de Carreiras é uma ação que contribui efetivamente para a representatividade da mulher negra no mercado de trabalho. “Um projeto completo, com conteúdo, troca, metodologia impecável e profundo. Há um movimento maravilhoso de profissionais, facilitadoras, voluntárias e voluntários que se dispõem, num fim de semana, a estar lá contando sobre suas carreiras, inspirando outras pessoas”, diz Luiza.

Para a co-líder do Comitê de Igualdade Racial, Kelly Castilho, as participantes passam a ter muito mais conhecimento de seu poder após o programa. “A mulher negra, às vezes, não tem consciência de onde pode chegar, dos degraus que pode subir, devido a anos e anos de opressão no ambiente de trabalho e na vida, e por não enxergarem outras mulheres negras em cargos de liderança. A partir do momento que participam do Aceleradora, entendem que elas podem ocupar qualquer espaço que desejarem”, diz.

Também co-líder do comitê, Kátia Rodrigues acredita que o programa tem potencial para promover uma reviravolta na trajetória da carreira das mulheres aceleradas. “O processo de autoconhecimento, as ferramentas técnicas e o networking proporcionados pelo workshop são a chave para que as mulheres negras superem as barreiras invisíveis de ascensão”, comenta.

Ela considera o autoconhecimento o aspecto mais importante desenvolvido pelo programa. “Nos últimos três anos, as competências do profissional do futuro elencadas pelo Fórum Econômico Mundial são soft skills (habilidades suaves), como inteligência emocional, criatividade e mediação de conflitos. Nenhum líder que não desenvolva seu olhar para dentro consegue realizar essas tarefas com maestria. A resposta está dentro e é aí que colocamos a nossa energia”, acrescenta Kátia.

Também para a voluntária e facilitadora do programa Andrea Cruz, o maior diferencial do programa está no fato de que 50% da agenda é destinada ao autoconhecimento, seja por meio das palestras de ancestralidade, valores e padrões ancestrais, ou de técnicas de vulnerabilidade concebidas de forma a abrir espaço para transformação. Ela destaca alguns ótimos aspectos sobre a turma do 4º. programa: o alto nível de comprometimento das participantes, o público alvo dentro do target  – “80% das participantes trabalham no corporativo e buscam acelerar suas carreiras” – e visibilidade do programa no mercado. “Após três edições, as próprias empresas já enviam suas funcionárias para o programa”, pontua Andrea.

Painel executivo

Andrea elogia ainda a “senioridade” no painel executivo, que contou com quadros do C-level abrindo suas agendas para falar da questão racial e mudando suas políticas para estarem mais atentos sobre como podem contribuir.

Um painel com um time de ‘feras’ no mercado inspirou as participantes – Foto: Divulgação

Um dos participantes do painel, o diretor de recursos humanos da Novo Nordisk, Moisés Vasconcellos Marques, diz ter se sentido lisonjeado em participar e ficou muito bem impressionado com o que viu. “Achei incrível. E não falo só do painel. (…) Até falei, no dia em que estive lá, que queria eu ter tido essa oportunidade, pois cresci sem referências. E eu sei hoje o quanto as referências são importantes nesse processo de desenvolvimento da carreira”, declara.

Moisés acha que o impacto do programa será “muito positivo”. “Não tem como ser diferente, porque as participantes estão tendo a oportunidade de trabalhar com pessoas incríveis e que podem ajudar a mostrar o ‘caminho das pedras’. Enquanto elas tiverem uma dificuldade ou em uma situação de dilema, elas vão se lembrar das histórias que ouviram, vão se lembrar dos aprendizados que tiveram no programa e saber como lidar. Então, eu imagino que elas vão sair pessoas mais fortes desse programa, tanto do ponto de vista profissional quanto do pessoal”, acrescentou.

O executivo acredita que o Aceleradora de Carreiras vai aumentar a representatividade da mulher negra no mundo corporativo. “Primeiro porque nós estamos preparando-as melhor; segundo porque você melhora a oferta dessas profissionais para as empresas – eu sinto que as empresas não sabem onde encontrar; terceiro porque acho que contar para elas quais são os principais desafios e negociar com as empresas o tipo de flexibilização que a gente pode ter é um fator bem importante”, diz .

Luiza Helena Trajano: “Um projeto completo, com conteúdo, troca, metodologia impecável e profundo” – Foto: Divulgação

As Aceleradas

Para a gerente de negócios sênior Valquiria Lima, o Programa Aceleradora de Carreiras foi a melhor experiência de troca que já teve e está mudando sua vida. “É uma rede de apoio que precisamos para romper algumas questões estruturais. As minhas expectativas foram superadas no primeiro dia, pelo acolhimento, energia, compromisso de todos os profissionais voluntários”, declara.

A publicitária e mestranda Angélica Moreira de Sousa, diz ter sido muito significativo e transformador participar da quarta edição do Programa, pois está em um momento de transição na própria carreira. “Há três meses, eu estava trabalhando. Hoje, já estou fazendo mestrado e começando a empreender uma startup”, conta ela, que diz ter chegado cética ao programa, pois pensou se tratar apenas de um workshop de carreira e motivação. “Porém, no último dia, domingo, eu saí completamente diferente. A Angélica que estava saindo de lá não era a mesma que entrou na sexta-feira. A mudança aconteceu em todos os sentidos, desde percepção de quem eu sou, sobre os meus talentos, até as minhas angústias, como também os meus sonhos, sabendo das minhas capacidades”, comemora. “Eu tinha muito medo de errar, mas saí com o conhecimento de que é errando que vamos aprendendo. Qualquer pessoa está sujeita a errar e a aprender. Saí mais forte com as minhas convicções, pronta para enfrentar as batalhas da vida”, conclui.

Por Sílvia Pereira