Mulheres que sempre sonharam e realizaram, e que, acima de tudo, amam incondicionalmente vivendo diariamente as dores e delícias de serem mães. Em suas veias pulsa um sangue indissolúvel, capaz de suportar os inúmeros ‘nãos’ da vida e os preconceitos de uma sociedade outrora incapaz de compreender mulheres à frente de seu tempo. Assim são Wilma Potomati, de 84 anos, Eliza da Aparecida Prestes de Oliveira, de 59 anos, Liliana Franco, de 81 anos, e Dafna Goldchmit, de 50 anos, mulheres visionárias, protagonistas de suas vidas e que, desde muito cedo, sempre fizeram acontecer.

Em clima de muita emoção, sincronicidade e energia contagiante, a Reunião Geral do Grupo Mulheres do Brasil, desta quinta-feira, 9 de maio, apresentou, em um talk show mediado por Luiza Helena Trajano, histórias de superação e resiliência entre mães e filhas que se reinventam a todo momento. Um pedacinho de cada uma de nós está em alguma dessas lindas e emocionantes histórias de vida. Neste Dia das Mães, uma verdadeira homenagem a todas as mães do Brasil.

Wilma Potomati tem 84 anos e ficou viúva aos 40 anos, quando se viu diante do grande desafio de assumir o negócio da família, uma indústria de tinta. Foi quando mães e filhas se uniram e assumiram o comando, que até então contava apenas com homens em sua diretoria. Wilma passou a ser a presidente, e as filhas, Cristina e Angélica, ocuparam a superintendência e diretoria de marketing da empresa, respectivamente.

Eliza da Aparecida Prestes de Oliveira aos 59 anos é casada há 37, criou 5 filhos, paparica três netas e é moradora de Paraisópolis. Paranaense e corintiana roxa, começou a trabalhar aos 8 anos de idade, cuidou e sustentou sua família com a profissão de empregada doméstica. Atualmente é dona do lar e cuida com muita dedicação da sua filha especial Elisângela.

Dafna Goldchmit tem 50 anos, é casada e tem duas filhas, a Mel, de 26 anos, e a Julie, 22 de anos. Quando Julie tinha dois meses de idade os médicos disseram que ela não iria andar e nem falar. Foi aí que surgiu o maior desafio da vida de Dafna, que, com o apoio do marido, parou de trabalhar e se dedicou, e ainda se dedica a estimular Julie da melhor forma para que possa ser incluída na sociedade. Julie se encontra dentro do transtorno do espectro autista leve e, por decisão familiar, não foi cursar faculdade e decidiu ingressar no mercado de trabalho. Tem inspirado pessoas com suas entrevistas e sua forma alegre, espontânea e determinada de querer fazer parte da sociedade.

Liliana Franco aos 81 anos se considera uma jovem senhora que possui diversos amigos ‘adolescentes de 100 anos’, colegas da Faculdade da Terceira Idade que está cursando para ficar antenada. Liliana trabalhou até o ano passado, sendo os últimos anos na empresa de consultoria da filha Eliane Franco. Casou-se três vezes, é viúva do último marido, tem duas filhas e três netos.

Wilma, Cristina e Angélica

Luiza Helena Trajano: depois que a gente é mãe marca uma divisão na vida da gente, nunca mais somos a mesma pessoa, nunca mais julgamos outras mães, inclusive. Dona Wilma, o que mais emociona na sua história é a força que a senhora deu para as suas filhas, quando os sócios não acreditavam em seus potenciais (uma sociedade ainda mais machista na época, há 40 anos) e a senhora os enfrentou e disse: “as minhas filhas vão assumir!”. O que a levou a ter essa força?

Wilma: O que me levou a isso foi a união da minha própria família que eram minhas filhas, minha mãe e meu marido. Eu vivia para eles, então, quando meu marido faleceu, pensei: e agora meu Deus? Fiquei um pouco confusa, mas fui para a luta. Logo após a missa de sétimo dia, marcamos uma reunião na empresa e anunciei: “eu vou ser a presidente e quem vai tomar conta dos negócios é a Cristina”.

Cristina: Minha mãe nos encorajou a enfrentar. Tem uma frase dela que ela utilizou lá atrás no início que era: “olha filha mais escuro que meia noite nunca fica”. Ela quis dizer que nós já estávamos naquele momento e tínhamos que seguir.

Angélica: Foi uma visionária e corajosa – chegava todo dia 1, 2 horas da manhã trabalhando, tivemos que conquistar o respeito das pessoas na empresa. Minha avó foi outra mulher corajosa que nos dizia: “vai que esses caras não estão com nada”. As mulheres da minha casa eram fortes e meu pai era um homem forte.

Cristina: Meu pai nunca teve preconceito em relação ao feminino. Ele foi um grande líder que nos preparou para a transição com leveza.

Wilma: A única coisa que vocês podem dar para os filhos é amor, carinho, ensiná-los a ser honestos. A educação e a boa vontade são os valores que permanecem na vida das pessoas. Dê muito amor aos seus filhos.

Angélica, Luiza, Wilma, Cristina – Foto: Angela Rezé

Eliza, Elizandra e Eliana

Luiza Helena: Esses dias eu fui no lançamento do livro da Elizandra (Elizandra, muitas vozes em uma só) e a senhora estava toda feliz, ela comanda um bistrô em Paraisópolis, maravilhoso. Conta pra gente qual era o sonho da senhora?

Eliza: Eu sonhava em dar o melhor para os meus filhos, eu trabalhava muito pra não deixar faltar as coisas pra eles. Eu queria que eles estudassem. Chamava ela, a Elizandra, pra ir na escola e ela já estava prontinha. Quando eu chegava elas já estavam em casa, a Elizandra e a Eliana. A minha filha especial, Elizangela, ia comigo para o trabalho.

Luiza Helena: E naquela festa bonita no JK, no lançamento do livro da Elizangela, o que a senhora sentiu? O que a senhora mais passou de ensinamentos para os seus filhos?

Eliza: Ah, eu me senti a mãe mais feliz do mundo! Além dos estudos, eu sempre ensinei os meus filhos a nunca pegar nada de ninguém, se quisessem alguma coisa, que pedissem e quando eu pudesse eu daria.

Luiza Helena: Elizandra, como é lançar um livro, ganhar prêmio, ir pra Paris?

Elizandra: Foi uma experiência muito boa. Eu não tive necessidade de buscar um exemplo fora de casa, porque minha mãe é o meu exemplo de vida. Boa parte do meu livro conta minha história de vida e de superação, graças à minha mãe que não teve oportunidade de estudar, então ela sempre valorizou muito isso para nós. A minha irmã Eliane também foi uma mãe pra mim, por ter cuidado de nós para que minha mãe trabalhasse, por isso ela começou a estudar aos 9 anos.

Eliane: Minha mãe tinha que trabalhar e eu fiquei com a responsabilidade de cuidar dos meus irmãos. Morávamos em um barraco, pois na época não tinha alvenaria em Paraisópolis, e, às vezes, quando não tínhamos o que comer, eu fazia um arroz colorido e dizia aos meus irmãos: “comam que está gostoso!”.

Luiza Helena: Qual ensinamento mais forte que sua mãe deixou para podermos passar para nossos filhos e netos?

Eliane: A visão que eu tenho da minha mãe é de força, em relação a tudo que ela passou, ela não teve o apoio da mãe, mas nos deu todo o amor do mundo. Ela não teve o amor da mãe dela mas conseguiu nos dar esse amor, com força e dedicação. E hoje, além de ser mãe, ela é uma avó maravilhosa e presente.

Elizandra: Agradeço todo dia a Deus pela minha mãe, que é um exemplo de superação. O que eu sou eu devo a ela que nunca baixou a cabeça mesmo sendo mulher e tendo dificuldades.

Eliza, Luiza, Elizandra, Eliane – Foto: Angela Rezé

Dafna, Julie e Mel

Luiza Helena: Conte-nos um pouco sobre sua experiência.

Dafna: Aos 27 anos eu tive a Julie e quando ela tinha três meses chegou um diagnóstico dizendo que ela não ia andar e nem falar.

Julie: Com isso escrevi um livro e estou no meu terceiro trabalho.

Luiza Helena: Julie, como foi pra você superar isso? Pelo que você luta no trabalho?

Julie: O que me faz superar é que eu lutei para entrar em um melhor. Luto pra gente ter igualdade e sermos tratados com igualdade. Aprendi numa palestra de inclusão que você não pode dar a bicicleta errada pra qualquer pessoa, você tem que dar a bicicleta certa pra pessoa certa.

Luiza Helena: Dafna, como é para você ter uma filha tão ativa?

Dafna: Eu acabei parando toda a minha vida profissional e investi nela, foi o maior desafio. Vou cuidar da Julie e da Mel, minha outra filha mais velha. Eu virei CEO da minha casa, pois tinha uma equipe de profissionais, professores. Essa era a opção. Hoje a Julie fala, trabalha e dá palestra.

Luiza: Mel, e para você como foi vivenciar tudo isso?

Mel: O ensinamento que enxergamos hoje é ver que com todo o sofrimento e busca a gente chegou aonde chegamos. Sempre foi um sonho que está acontecendo. Um sonho em que a Julie fosse mais incluída. Ela estar trabalhando hoje é uma conquista, ela é uma pessoa muito forte.

Luiza Helena: Isso é um exemplo para todas nós, você tem que buscar o que você quer, escrever a sua própria história.

Dafna: A vida sem desafios não tem graça!

Julie, Luiza, Dafna e Mel – Foto: Angela Rezé

Liliana e Eliane

Luiza Helena: Liliana, conta pra gente como é ter 81 anos e fazer uma faculdade?

Liliana: Resolvi fazer faculdade para poder conversar com meus netos, pois eu estava ficando pra trás. É uma experiência muito boa, a gente convive com muita gente, com pessoas mais velhas do que eu e vemos como a nossa vida ainda é boa, quantas coisas superamos, pois encontramos colegas que nos dão lições de vida.

Luiza Helena: Como é ter uma filha assim tão legal?

Liliana: Posso falar que Eliane é a ponta firme, e que se eu precisar de alguma coisa ela está sempre presente. Quando perdi meu marido e minha mãe, 15 anos atrás, fiquei muito mal ela disse: “mãe estou precisando tanto que você vá me ajudar no escritório?”. No fundo eu sabia que ela não estava precisando nada…mas foi isso que me salvou e me fez sair do buraco, foi a maior terapia da minha vida. Eu falo sempre, obrigada, minha filha!

Eliane: Ela chegou no escritório, com a garotada de 20 e poucos anos, logo ela estava fazendo planilha em excel, logo ela era relações públicas e começou a divulgar vagas nas faculdades e cadastrou duas mil faculdades. Então, chegava alguém e dizia: “dona Liliana, por que a senhora não faz isso?”. Ela respondia: “isso eu já fiz, você tem alguma outra ideia?”.  Então essa era minha mãe. Ela não imaginava o quanto eu precisava dela. Ela é um grande exemplo!

Luiza Helena: O que foi importante na educação das filhas que a senhora pode passar pra gente?

Liliana: Principalmente respeitar o próximo, é o humilde quem você tem que tratar melhor, quem precisa mais, aprendi muito isso com meu avô. Sempre passei isso para as minhas filhas, que elas tivessem muito respeito pelas pessoas, tivessem caridade e não fossem arrogantes. O que eu posso dizer para vocês é paciência e otimismo, porque a vida vale!

Liliana, Luiza e Eliane – Foto: Angela Rezé

Depoimento de uma filha

A noite também teve o emocionante depoimento de Lina Kotschedoff sobre sua mãe, Iramaia Kotschedoff.  “A minha mãe é minha inspiração, porque por trás de uma mulher de sucesso você sempre tem uma mãe de bastante força, no meu caso é muito importante porque com 9 anos eu comecei a perder a visão e hoje em dia eu enxergo 4%. Naquela época muitas pessoas chegaram para minha mãe e falaram: como a senhora ainda consegue sorrir, tendo uma filha deficiente? Minha mãe percebeu que ela tinha que sorrir mais ainda e me motivar. Então ela me perguntava, o que você quer ser na vida? Você tem um mundo para ganhar, você tem que saber o que você quer, correr atrás e acreditar em você. Eu criei filhos para o mundo e te dei asas para voar”.

Lina é formada em administração de marketing e trabalhou dez anos em desenvolvimento de negócios novos, fez MBA, é mentora de startups e coach para mulheres.

Lina e Luiza – Foto: Angela Rezé