*Texto enviado pela jornalista correspondente em Londres, Yula Rocha

Vestido de fraque e com medalhas na lapela, o embaixador do Brasil em Londres, Fred Arruda, recebeu o Grupo Mulheres do Brasil e empresários brasileiros na sede da diplomacia Britânica. Tamanha pompa, ele explicou, não era para uma simples reunião de trabalho, mas ele participaria da solenidade que marca o início do ano parlamentar em Westminster, aberto pela Rainha Elizabeth Segunda, que chega de carruagem, uma tradição que se repete anualmente desde 1852.

O embaixador do Brasil em Londres, Fred Arruda, durante seu discurso – Foto: Divulgação

Sem a presença do embaixador e do protocolo exigido pela monarquia, a reunião seguiu com o cônsul-geral Tarcísio Costa, representantes do Grupo Mulheres do Brasil e das empresas Natura, Banco do Brasil, Bloomberg, escritório de advocacia Mattos Filho, consultoria Integration, empresa de engenharia Contracta e a Câmara de Comércio Brasileira no Reino Unido.

Com uma comunidade de cerca de 250 mil brasileiros estabelecidos, o cônsul-geral enfatizou duas prioridades do corpo diplomático para as imigrantes daqui, prioridades essas que, aliás, estão muito alinhadas com o Grupo Mulheres do Brasil.

A primeira é o perfil empreendedor da comunidade brasileira que tem investido na abertura de pequenos e médios negócios. São centenas de empresas brasileiras na área de turismo, alimentação, estética, entre outras. Mas, ele ressaltou que nem sempre esse caminho é fácil para o estrangeiro ou estrangeira por falta de entendimento das leis e de acesso ao crédito. Os brasileiros também enfrentam muita dificuldade de conseguir trabalho, com a barreira da língua e a falta de familiaridade com o mercado britânico.

O cônsul-geral Tarcísio Costa conduziu a reunião junto ao Grupo Mulheres do Brasil – Foto: Divulgação

A segunda prioridade de apoio à comunidade, para Tarcísio é baseada na preocupação com o aumento da violência doméstica. No ano passado, 173 mulheres foram mortas pelos parceiros ou ex-parceiros no Reino Unido, entre elas, a brasileira Alyne Mendes que entrou para as tristes estatísticas da polícia, esfaqueada pelo marido.

O cônsul-geral lembrou que as brasileiras aqui fora estão muito mais vulneráveis a esse tipo de violência. Muitas delas estão ilegais no país e por isso têm medo de prestar queixa à polícia, outras, têm visto vinculado ao do esposo e dependem deles financeiramente. Além disso, aqui na Inglaterra, elas estão sem apoio da família e dos amigos e quando violentadas dentro de casa não têm um lugar seguro para fugir. O Núcleo Londres está dando apoio à organização AMBE que, com o consulado, presta assistência às mulheres brasileiras vítimas de abuso e as auxilia a fazer uso dos direitos que têm no Reino Unido.

Tarcísio convidou o Grupo Mulheres do Brasil Núcleo Londres para participar, no dia 20 de novembro, no King’s College, de um seminário que visa identificar as causas e ampliar auxílio a essas mulheres.  Enquanto isso, tramita no Parlamento Britânico um projeto de lei para reconhecer todas as formas de violência doméstica, inclusive o abuso não-violento como manipulação e intimidação financeira à vítima.

Da reunião saiu também um convite de parceria entre o Grupo Mulheres do Brasil e a Casa do Brasil, uma ONG que oferece um espaço de acolhida e auxílio a cerca de 24 mil imigrantes brasileiros em Londres. Convite aceito!

Luiza Helena Trajano pede apoio profissional às brasileiras que vivem no exterior – Foto: Divulgação

Luiza Helena Trajano, presidente do Grupo, cobrou dos empresários presentes, apoio à carreira das mulheres brasileiras no exterior e inserção e mais representatividade feminina no mercado de trabalho. Luiza reforçou que muitas brasileiras abandonaram suas carreiras de sucesso no Brasil para acompanhar seus maridos no Reino Unido e se encontram com muita dificuldade para voltar ao mercado de trabalho. “As empresas brasileiras poderiam ser a porta de entrada delas aqui no exterior”, sugere Luiza. Os empresários prometeram identificar os “gaps” nos currículos destas mulheres e, com base na competência destas potenciais candidatas, considerá-las quando oportunidades de vagas de trabalho surgirem.

Com espírito de “juntas somos mais fortes”, a reunião foi encerrada com uma grande roda na qual todos cantaram “sonho que se sonha só é só um sonho, mas sonho que se sonha junto é realidade”.