*Texto de Kaká Rodrigues, uma das líderes do Comitê Igualdade Racial do Grupo Mulheres do Brasil, com revisão de Susana de Souza, Comunicação Grupo Mulheres do Brasil.

Alguns recentes casos de violência policial contra negros, como a morte de George Floyd por um policial de Mineápolis, nos Estados Unidos, da menina Ágatha Félix, de 8 anos, baleada em setembro de 2019 no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, e do adolescente João Pedro Mattos, 14, alvejado dentro de casa e morto com um tiro nas costas em São Gonçalo, no mês passado, tem motivado inúmeros protestos e feito cidadãos brancos começarem a abrir os seus olhos e ouvidos para algo que é cotidiano na vida de cidadãos negros aqui ou nos EUA: o racismo nosso de cada dia.

Os casos citados e tantos outros que sequer chegam ao nosso conhecimento são trágicos. Após mais de um século de abolição da escravidão, negros ainda vivem com medo, inseguros frente a uma política de segurança pública racista, que discrimina e mata, dependendo da cor da sua pele.

Durante muitos anos, a nossa forma escolhida para lidar com essas situações de conflito causadas pelo racismo foi o afastamento. Uma atitude inassertiva e não cooperativa. Ao afastar-se a pessoa não se empenha em satisfazer os seus interesses (paz e segurança, por exemplo), nem tampouco coopera com a outra pessoa (direito à vida, dignidade, oportunidades, por exemplo). Ao escolher essa estratégia, o indivíduo coloca-se “diplomaticamente” à margem do conflito, às vezes adiando o assunto para um momento mais adequado, ou então simplesmente recuando diante de uma situação de ameaça (física, emocional ou intelectual).

Mas, 2020 chegou e em meio a uma pandemia mundial que nos faz repensar diariamente o impacto das nossas ações na coletividade, está claro que fugir ou afastar-se não é mais uma opção. O grau de opressão direcionado à população negra tornou a situação insustentável e todos serão responsabilizados, por ação ou por omissão, pelos custos da manutenção desse sistema.

Esse texto é direcionado especialmente àqueles que hoje desejam se responsabilizar ativamente por essa mudança. Afinal, como disse Mahatma Gandhi, a menos que nos tornemos a mudança que desejamos ver acontecer no mundo, nenhuma mudança jamais acontecerá.

A atitude antirracista escolhe, como estratégia de administração dos conflitos causados pelo racismo, a colaboração. Esta é uma atitude tanto assertiva quanto cooperativa. Ao colaborar, (no caso, brancos antirracistas) procura trabalhar com a outra pessoa (cidadãos negros), tendo em vista encontrar uma solução que satisfaça plenamente os interesses das duas partes.

Significa aprofundar o assunto para identificar as necessidades e interesses dos dois lados e encontrar uma solução satisfatória para todos os envolvidos. Ao colaborar, o indivíduo procura aprender com os desacordos, olhando o ponto de vista do outro, bem como resolver situações que de outra forma poderiam descambar para competição por recursos, ou ainda tentar encontrar soluções criativas para problemas de relacionamento interpessoal.

No entanto, para colaborar adequadamente, é preciso estudar, estar aberto para aprender, para escutar pessoas negras dizendo o que é ser uma pessoa negra em uma sociedade racista, quais são os tipos de violência física e psicológica a que essas pessoas estão sujeitas, os impactos dessas micro violências e exclusões diárias, a relação entre escravidão e racismo, os benefícios econômicos de fazer parte da população branca no Brasil. É preciso estar aberto para entender como o sistema escravocrata ainda impacta a organização da nossa sociedade atual.

Segundo Djamila Ribeiro, no livro Pequeno manual antirracista (Companhia das Letras), o racismo é um sistema de opressão que nega direitos, e não um simples ato da vontade de um indivíduo. A autora afirma que reconhecer o caráter estrutural do racismo pode ser paralisante. Afinal, como enfrentar um monstro tão grande? No entanto, não devemos nos intimidar. Todos já percebemos que a prática antirracista é urgente e se dá nas atitudes mais cotidianas.

Para ajudá-lo nesse processo de reeducação para se tornar uma pessoa antirracista na prática, listamos abaixo algumas atitudes ensinadas pela autora como caminhos de reflexão e ação para você que deseja assumir a responsabilidade pela transformação de nossa sociedade.

  1. Informe-se sobre o racismo
    • É preciso identificar os mitos que fundam as peculiaridades do sistema de opressão operado aqui, e certamente o da democracia racial é o mais conhecido e nocivo deles.
    • Devemos aprender com a história do feminismo negro, que nos ensina a importância de nomear as opressões, já que não podemos combater o que não tem nome. Reconhecer o racismo é a melhor forma de combatê-lo. Não tenha medo das palavras “branco”, “negro”, “racismo”, “racista”. Dizer que determinada atitude foi racista é apenas uma forma de caracterizá-la e definir seu sentido e suas implicações.
  2. Questione-se!
    • Faça perguntas como: o que, de fato, cada um de nós tem feito e pode fazer pela luta antirracista? O autoquestionamento—fazer perguntas, entender seu lugar e duvidar do que parece “natural” — é a primeira medida para evitar reproduzir esse tipo de violência, que privilegia uns e oprime outros.
  3. Enxergue a negritude
    • A falta de reflexão sobre a negritude é o que constitui uma das bases para a perpetuação do sistema de discriminação racial.
    • É importante ter em mente que para pensar soluções para uma realidade, devemos tirá-la da invisibilidade. Portanto, frases como “eu não vejo cor” não ajudam.
    • O problema não é a cor, mas, seu uso como justificativa para segregar e oprimir. Vejam cores, somos diversos e não há nada de errado nisso – se vivemos relações raciais, é preciso falar sobre negritude e também sobre branquitude.
  4. Reconheça os privilégios da branquitude
    • Pessoas brancas não costumam pensar sobre o que significa pertencer a esse grupo, pois o debate racial é sempre focado na negritude.
    • A ausência ou a baixa incidência de pessoas negras em espaços de poder não costuma causar incômodo ou surpresa em pessoas brancas.
    • Se a população negra é a maioria no país, quase 56%, o que torna o Brasil a maior nação negra fora da África, a ausência de pessoas negras em espaços de poder deveria ser algo chocante. Portanto, uma pessoa branca deve pensar seu lugar de modo que entenda os privilégios que acompanham a sua cor. Isso é importante para que privilégios não sejam naturalizados ou considerados apenas esforço próprio.
    • Observe que os homens brancos são maioria nos espaços de poder. Esse não é um lugar natural, foi construído a partir de processos de escravização.
  5. Entenda que a responsabilidade histórica pela criação do racismo é da branquitude
    • Até serem homogeneizados pelo processo colonial, os povos negros existiam como etnias, culturas e idiomas diversos – isso até serem tratados como “o negro”.
    • Tal categoria foi criada em um processo de discriminação, que visava ao tratamento de seres humanos como mercadoria. Portanto, o racismo foi inventado pela branquitude, que como criadora deve se responsabilizar por ele.
    • Não se trata de se sentir culpado por ser branco: a questão é se responsabilizar. Diferente da culpa, que leva à inércia, a responsabilidade leva à ação.
  6. Perceba o racismo internalizado em você
    • A maioria das pessoas admite haver racismo no Brasil, mas quase ninguém se assume como racista. Pelo contrário, o primeiro impulso de muita gente é recusar enfaticamente a hipótese de ter um comportamento racista. No entanto, é impossível não ser racista tendo sido criado numa sociedade racista. É algo que está em nós e contra o que devemos lutar sempre.
    • Note que o racismo é algo tão presente em nossa sociedade que muitas vezes passa despercebido. Um exemplo é a ausência de pessoas negras numa produção cinematográfica – aí também está o racismo. Ou então quando, ao escutar uma piada racista, as pessoas riem ou silenciam, em vez de repreender quem a fez – e o silêncio é cúmplice da violência.
    • Aceite que ser antirracista é assumir uma postura incômoda. É estar sempre atento às nossas próprias atitudes e disposto a enxergar privilégios. Isso significa muitas vezes ser tachado de “o chato”, “aquele que não vira o disco”.
    • Entenda que é preciso deixar de lado expressões racistas como “ela é negra, mas é bonita” – que coloca uma preposição adversativa ao elogiar uma pessoa negra, como se um adjetivo positivo fosse o contrário de ser negra.
  7. Transforme seu ambiente de trabalho
    • É preciso romper com a estratégia do “negro único”: não basta ter uma pessoa negra para considerar que determinado espaço de poder foi “dedetizado contra o racismo”.
    • Se você tem ou trabalha numa empresa, algumas questões que você deve colocar são: Qual a proporção de pessoas negras e brancas em sua empresa? E como fica essa proporção no caso dos cargos mais altos? Como a questão racial é tratada durante a contratação de pessoal? Ou ela simplesmente não é tratada, porque esse processo deve ser “daltônico”? Há, na sua empresa, algum comitê de diversidade ou um projeto para melhorar esses números? Há espaço para um humor hostil a grupos vulneráveis? Perguntas desse tipo podem servir de guia para uma reavaliação do racismo nos ambientes de trabalho.
    • Se a sua empresa está focada em quem cursou universidades de elite ou tem inglês fluente, isso pode significar que apenas pessoas privilegiadas poderão enviar seus currículos, pois sabemos que, no Brasil, estudar outro idioma ou fazer um intercâmbio não é acessível para todo mundo. Somente uma parcela privilegiada da sociedade tem acesso a isso.
  8. Combata a violência racial
    • Os negros representam 55,8% da população brasileira e são 71,5% das pessoas assassinadas. Entre 2006 e 2016 a taxa de homicídios de indivíduos não negros (brancos, amarelos e indígenas) diminuiu 6,8%, enquanto no mesmo período a taxa de homicídios da população negra aumentou 23,1%.
    • Segundo dados da Anistia Internacional, a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil, o que evidencia que está em curso o genocídio da população negra, sobretudo jovens.
    • No Brasil, existem vários movimentos e organizações engajadas em combater abusos por parte do Estado, como a Iniciativa Negra, a Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio, o projeto Movimentos, o Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD), o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, entre outros. Há várias maneiras de apoiar o trabalho dessas pessoas, quer seja financeiramente, divulgando as iniciativas ou comparecendo a eventos e manifestações.
  9. Seja antirracista! Duvide do status quo. Estude. Escute. Apoie. Seja a mudança que você deseja ver no mundo. Afinal, o antirracismo é uma luta de todas e todos.

P.S. Essas dicas foram extraídas do livro Pequeno manual antirracista, da autora Djamila Ribeiro, editora Companhia das Letras. Quer ser mesmo um antirracista? Sugerimos a leitura completa do livro que traz exemplos, contexto histórico e argumentos sólidos para a sua transformação.