Quatro projetos do Grupo Mulheres do Brasil Núcleo Fortaleza contribuem para o cumprimento de uma função do Estado: promover a ressocialização harmônica de detentos.

Desde o ano passado, quatro projetos do Grupo Mulheres do Brasil Núcleo Fortaleza estão mudando as vidas de 80 internos de presídios e dando novas perspectivas de futuro a oito jovens em cumprimento de medidas de internação socioeducativa. Desenvolvidos por membros do Grupo de Trabalho Cultura de Paz do Núcleo, os projetos “Rede de Sonhos”,  “Bordando a Vida”, “Criando Laços” e “Botão de Rosa” promovem o desenvolvimento emocional, educacional e profissional de internos em quatro unidades do sistema penitenciário do Ceará, com vistas às suas reintegrações harmônicas à sociedade.

De acordo com Aline Lima de Paula Miranda, advogada atuante como defensora pública no sistema penitenciário há 16 anos e co-líder do GT Cultura de Paz, tudo começou com o pedido de um detento da Casa de Privação Provisória de Liberdade (CPPL IV).

Rede produzida por detento – Foto: Divulgação

No início de 2018, o interno de nome Allan a procurou pedindo uma chance para trabalhar de dentro do presídio. “Ele sabia fazer redes de dormir. Mostrou algumas que fazia dentro da cela”, lembra a advogada.

Nasceu assim a ideia de elaborar um projeto, envolvendo os detentos e suas famílias, que trabalhasse em duas frentes: a qualificação profissional dos internos, por meio do ensino da confecção de redes; e a ressocialização deles, por meio de valorização humana promovida por dinâmicas de grupo conduzidas por facilitadoras capacitadas. “As duas coisas têm que ser dadas juntas. Uma ou outra sozinha não funciona”, explica Aline.

Curso de design da renda para os internos do Instituto penal Irmã Imelda – Foto: Divulgação

Ela levou, então, a ideia à direção do CPPL IV, que autorizou e concordou em ceder um espaço no presídio para o trabalho. O Grupo Mulheres do Brasil ainda fechou parceria com a Secretaria de Administração Penitenciária (SAP), por meio da Coordenadoria de Inclusão do Preso e do Egresso (Cispe), que comprometeu-se a gerir os recursos levantados com a venda dos produtos manufaturados pelos presos e a incluí-los no programa de remição de pena –  a cada três dias trabalhados no projeto, cada preso ganha redução de um dia em sua pena.

Sob o título de “Rede de Sonhos”, este primeiro projeto foi iniciado em março de 2018, beneficiando diretamente 12 presos – hoje são 20 – e indiretamente todos os membros de suas famílias, que também participam de dinâmicas de valorização humana.

Aline e Ethel, ao lado de internos, participantes do projeto Rede de Sonhos – Foto: Divulgação

“A gente busca trabalhar aspectos de ressignificação da vida deles. São usadas ferramentas de diálogo com prática restaurativa de Comunicação Não Violenta e Círculos de Construção de Paz, por meio das quais as facilitadoras conduzem reflexões sobre violência, culpa, vingança, sociedade”, descreve Aline.

Essas dinâmicas são aplicadas no CPPL às terças de manhã, por duas facilitadoras capacitadas nas metodologias da norte-americana Kay Pranis: a teóloga e psicanalista Magnólia Costa aplica a ferramenta Círculos de Construção da Paz, e Emanuelle Caselli a de Comunicação Não Violenta.

As aulas de confecção de redes e varandas de crochês são dadas semanalmente, às quartas, e desde novembro passado são coordenadas pela co-líder do GT de Artesanato, Ethel Whitehurst. “Tem sido um sucesso. Já temos casos de egressos que estão ganhando dinheiro com o artesanato desde que saíram da prisão”, orgulha-se Ethel.

Ampliação

Em meados de 2018, Ethel foi convidada, pela coordenadora do Cispe, Cristiane Gadelha, a conhecer outros dois projetos envolvendo artesanato que já eram conduzidos em duas unidades prisionais da região metropolitana de Fortaleza. No Instituto Penal Feminino Auri Moura Costa, 20 internas já bordavam almofadas; e no Instituto Penal Irmã Imelda, 20 homens produziam renda tenerife, crochê e tapetes com retalhos de malha.

Curso de bordado a mão para internas – Foto: Divulgação

Quando conheceu os trabalhos, Ethel verificou que não tinham um padrão de qualidade – “eram bem simplórios”, lembra. Ela concordou, então, em passar a orientar a produção dos internos nas duas instituições, dando o pontapé inicial para os projetos “Criando Laços”, que hoje abrange 30 internos do Irmã Imelda, e “Bordando a Vida”, que inclui 30 internas do presídio feminino.

“Concluímos que as pessoas não deveriam comprar trabalhos de presidiários só por pena. O trabalho precisa ser de qualidade”, comenta a líder do Núcleo Fortaleza, Annette Reevees de Castro, ao justificar o envolvimento do grupo nessas causas.

Ethel ensinando as internas do presídio feminino a confeccionar artesanato – Foto: Divulgação

Nos presídios Irmã Imelda e Moura Costa, o trabalho de valorização humana começou a ser desenvolvido no início deste ano – semanalmente com os presos e uma vez ao mês com as famílias deles. Paralelamente, o GT Cultura de Paz também desenvolve, nessas unidades, trabalhos junto a agentes penitenciários, com os quais precisam estar sempre dialogando dentro dos presídios.

Ação de valorização humana no presídio feminino – Foto: Divulgação

O Grupo Mulheres do Brasil ainda se responsabiliza pela divulgação e comercialização das peças produzidas nos três projetos envolvendo recuperandos. Neste sentido, já foram feitos dois lançamentos de produtos, organizados por Ethel e Annette, em um local que jamais havia visto trabalhos de presos antes: a casa de móveis e produtos de arquitetura Decorart Conceito, localizada dentro do Shopping Iguatemi de Fortaleza.

Lançamento de coleção de produtos confeccionados pelos detentos – Foto: Divulgação

Segundo a co-líder Aline, existe a ambição de aumentar a capacidade de atendimento a mais presos nos três projetos. Por isso, Grupo acaba de abrir mais duas turmas de formação de facilitadoras de Círculos de Construção de Paz – cada uma com capacidade para 20 voluntárias. “Queremos aplicar essa metodologia para mais presos e mais jovens do sistema socioeducativo, com participação do GT de Educação e do GT de Empreendedorismo. A gente só pode aplicar a ferramenta se for qualificado pra fazer”, explica.

Jovens

Em junho de 2018, representantes da Superintendência Estadual de Atendimento Socioeducativo (SEAS) procurou a líder Annette com a proposta de construção conjunta de um projeto piloto, que atendesse, inicialmente, oito adolescentes do Centro Socioeducativo Aldaci Barbosa Mota, com desenvolvimento de habilidades profissionais, educacionais e emocionais das reeducandas, por meio de aulas e da aplicação das dinâmicas de valorização humana, estendidas também a seus familiares.

Após esse primeiro encontro, a Líder do GT Cultura de Paz, Aline Miranda, redigiu o projeto “Botão de Rosa”, com base nas linhas gerais apresentadas pela SEAS. O programa foi desenvolvido de janeiro a julho e agora está em fase de direcionamento ao mercado de trabalho das oito jovens atendidas.

Os quatro projetos citados estão sob o guarda-chuva do GT Cultura de Paz e são tocados por voluntárias do Grupo Mulheres do Brasil. “Nós temos um grupo de pessoas que faz um trabalho voluntário para a sociedade que ajuda o próprio Estado. Estamos trabalhando para a pacificação do espaço – evitando brigas e desordem. Estamos ajudando o Estado a exercer uma função que é dele”, orgulha-se Aline. “É gratificante para nós”, completa a líder Annette.

Por Sílvia Pereira