*Texto enviado por Eliana Tameirão

Mais de 1,2 milhão de mulheres sofreram violência no Brasil entre 2010 e 2017; uma mulher é assassinada a cada duas horas no Brasil; Minas Gerais apresentou o maior número de feminicídios no país em 2018 (157 assassinatos e 279 atentados); só neste ano, Minas já chegou a 114 assassinatos de mulheres, praticados por seus parceiros.

Números dizem muito, mas não dizem tudo. Os assassinatos de mulheres são apenas a ponta sangrenta de uma cadeia comportamental que vitimiza as mulheres na rotina do dia a dia, desde crianças, nos mais variados espaços e ambientes. Família, escola, trabalho. Do Brasil profundo é impossível pensar em estatísticas e doloroso imaginar pelo que passam mulheres e meninas.

Quem disse que o mundo foi feito para os homens e a eles pertence? Quem instituiu hierarquia na raça humana? Fosse assim, quem gesta a vida tem a primazia. Então, com ou sem costelas e maçãs, que a cobra nos dê licença, temos urgência em virar a página. Somos maioria e tão capazes quanto qualquer um. Quem não entende isso parou no tempo.

Não é brado de guerra nosso grito e nem nos interessa construir um mundo bipolar. Do nosso lado, a gente quer ir em frente e acha que isso basta. Se é mesmo que queremos construir uma sociedade de verdade, com justiça social e liberdade, as mulheres só têm a contribuir. Isso não é retórica, basta olhar para qualquer lado (para a frente, principalmente) e veremos mulheres na lida diária, em todos os lugares e atividades (e com muito talento).

Não cabem no século XXI ranços religiosos fundamentalistas, crença em macho-alfa-provedor e adoração à testosterona como justificativas à estupidez tacanha e cruel que rebaixa, agride, violenta e assassina mulheres. Contra isso toda a sociedade brasileira tem que se levantar. Essa luta é de ontem, vem do passado, insiste em manchar o presente e maldizer o futuro. É uma vergonha que o Brasil veja aumentar a violência contra as mulheres. O país está doente.

Não podemos sublimar os enfrentamentos que uma sociedade moldada, organizada e adaptada para o homem nos coloca (no trânsito, no bar, na empresa, na rua, na política, no casamento, no divórcio e por aí afora). Ainda pior, no Brasil de hoje, alguns se veem como artífices de um reino “de poder do falo” e pregam abertamente a submissão feminina. São perversos.

Maria da Penha, a pessoa e a Lei, estão aí a nos encorajar. Ela, símbolo da resistência à covardia; a Lei, como instrumento para fustigar, prender e levar às barras da justiça autores de violência contra as mulheres. Para o futuro, semeemos agora: digam a seus meninos que o mundo é de todos e que somos mulheres e homens – iguais, diferentes e complementares -, e que o barato da espécie humana é vivermos juntos e em harmonia. A revolução começa dentro de casa.

*Eliana Tameirão é bióloga, executiva e cofundadora do Grupo Mulheres do Brasil