Texto enviado por: Ulrike Brinkmann

Quando criança da geração pós-guerra, em Frankfurt, experimentei os anos de milagre econômico (de 1958 a 1968), com minhas avós e nossas mães. Quem teve filhos ficou em casa como mãe. Caso contrário, as mulheres eram chamadas de “mães corvos que criavam Schlüsselkinder” – crianças que ficavam trancada em casa enquanto a mãe ia trabalhar. Se uma mulher como eu foi a primeira da família a se formar no ensino médio e “foi autorizada a estudar”, a maior das aspirações de carreira era ser professora. Na época, a formação em período parcial era a melhor maneira de as mulheres estudarem para equilibrar a família e trabalhar como educadoras.

A igualdade de direitos das mulheres foi e ainda é um longo caminho na Europa e também na Alemanha. Apesar do avanço alcançado nos últimos anos, as mulheres na Alemanha não vivem em um paraíso feminista, nem mesmo em uma sociedade com igualdade de gênero.

Embora mais e mais  mulheres ocupem cargos elevados tanto  em partidos políticos e no governo (chanceler Angela Merkel, Ursula von der Leyen – a presidente do Parlamento Europeu e a empresária e CEO da empresa de detergentes para a roupa Henkel), as condições de vida de muitas mulheres aqui pioraram devido à crise econômica e ao neoliberalismo nos últimos anos: existe um teto de vidro para as mulheres, impedindo-lhes de ocupar as primeiras posições na economia.

A compatibilidade da família e do trabalho ainda não foi alcançada. Salários desiguais discriminam as mulheres e a violência doméstica também é um grande problema aqui. Desde 2000, vem crescendo as redes de mulheres trabalhadoras, clubes de caridade comprometidos com mulheres carentes, mas não existe um movimento organizado de mulheres como o Grupo de Mulheres do Brasil.

Luiza Helena Trajano é uma feminista notável, com quem podemos aprender muito aqui na Europa. Mulher de negócios com um coração social, realista, comprometida com o seu país natal e com a luta para fortalecer as mulheres no Brasil em autoconfiança, educação e independência, para que possam participar da construção de um Brasil melhor. Porque ela acredita que o país tem muito mais a oferecer do que apenas futebol, samba, carnaval e a beleza das mulheres de biquíni no catálogo de viagens de Copacabana.

Luiza Helena Trajano é homenageada no lançamento do Núcleo Düsseldorf – Foto: Divulgação

O Brasil é um continente quente, uma colcha de retalhos de muitas culturas, natureza rica e povoado por mulheres fortes que conseguem conectar os pobres e os ricos. É isso que Luiza Helena Trajano representa com suas fundadoras do Grupo com mais de 38 mil membros no Brasil e no exterior.

Quem aqui na Alemanha iniciou o “macacão roxo do feminismo” com bastante radicalismo, de forma muito militante, encontrará uma variante mais feminina em Luiza: o feminismo não exclui a feminilidade – nem os homens. Porque cada vez mais homens são atraídos para o seu movimento com o objetivo de uma sociedade igualitária.

É corajoso e muito atraente ver que o Grupo Mulheres do Brasil também inclui as brasileiras que moram em outros lugares do mundo. Portanto, é lógico que Núcleos – novos nós que fortalecerão a rede – sejam formados em outros locais, além de Düsseldorf, como por exemplo em Frankfurt e certamente também em Berlim. A ideia foi inteligente e possibilitou que as brasileiras que vivem em outros países possam estabelecer novas conexões entre elas mesmas, estando em um novo continente.

Este é o objetivo postulado por Luiza e sua delegação no Centro de Congressos de Düsseldorf: reunir 1 milhão de mulheres no Grupo em alguns anos, e este objetivo parece bastante realista. Qualquer um que pudesse experimentar o espírito brasileiro tinha que se arrepiar ao ouvir o hino, que era entoado paralelamente às grandes fotos do país.

Desejo a Luiza Helena Trajano a fundadora e motivadora do Grupo, mas também a Iramaia Kotschedoff, construtora de pontes, comprometida entre a Alemanha e o Brasil, uma das líderes do Núcleo Düsseldorf, que o movimento das mulheres brasileiras se torne mais forte – também pela comunidade europeia – como uma proposta muito valorosa.

Iramaia e Luiza, durante o lançamento do Núcelo Düsseldorf – Foto: Divulgação

O que também podemos aprender com as brasileiras é a mensagem que elas transmitiram em sua apresentação durante o lançamento do grupo em Düsseldorf: “Em vez de reclamar que nossos governos não estão fazendo o suficiente por nós, temos que agir por conta própria e ajudar sempre que necessário. O Grupo apoia os Objetivos de Sustentabilidade do Milênio das Nações Unidas e está comprometido em melhorar o mundo até 2030.  Juntas, elas estão no caminho certo.

Vocês conseguirão!

Ulrike Brinkmann – Public Relations & Campaigning, Germany

Bkw büro für kommunikation